Em conversa mediada por André Effgen no Centro Cultural, Matheus Boa Sorte contou como trocou o roteiro turístico pelas histórias do “lado B” do Brasil, e por que escolheu viver em Vitória da Conquista
“Eu defendo que o sertão é um estado de espírito e não um lugar que foge, que chove pouco.” A frase resumiu a conversa entre Matheus Boa Sorte e André Effgen no Centro Cultural, dentro da programação da Fligê. Apresentador do “Boa Sorte Viajante”, ele falou sobre a trajetória que transformou um guia turístico no maior canal de turismo documental da América do Sul.
Boa Sorte nasceu no Sítio Lagoa dos Patos, em Guanambi, onde gravava poesias embaixo de um flamboyant, à beira de um curral. Enquanto colegas de escola sonhavam em ser médicos ou pilotos, ele queria ser cantor de forró e apresentador do SBT e ouviu risada por isso. “Matuto nasceu para ser matuto”, disse um colega, numa frase que ele carrega até hoje.
Começou no rádio aos 11 anos. Aos 19, conseguiu um estágio não remunerado no SBT, onde passou oito anos e subiu de estagiário a gerente de conteúdo. Na pandemia, decidiu sair da emissora para contar histórias sem as amarras do jornalismo de estúdio. Voltou seis anos depois.
O programa nasceu em 2013 como guia de serviços de hoteis e restaurantes. A audiência não vingou. Na segunda temporada, Boa Sorte trocou o destino pelo protagonismo das pessoas. “Em vez de apenas descrever uma cachoeira, passei a caminhar com os moradores locais, ouvindo suas histórias”, contou.
Uma das histórias que ele guarda com mais carinho é a da comunidade de Macacos, no sul do Maranhão, apontada como a mais isolada do Nordeste brasileiro, no município de Alto Parnaíba. Antes de viajar, ligou para a prefeitura atrás de informações e ouviu que não havia nada a gravar por lá. Perguntou se havia gente na comunidade. A resposta foi 33 pessoas. “Eu falei: olha só que beleza, eu tenho 33 histórias para contar. Foi uma das grandes reportagens da minha vida”, relembrou. Para ele, quanto menor o lugar, maior o desafio de tirar dali uma boa história e maior a paciência exigida para essa escuta, inclusive a de aceitar os cafés oferecidos em cada casa que visita durante as gravações.
Em Tabatinga, no Amazonas, encontrou outra realidade. Só para chegar até lá, saiu de Vitória da Conquista numa segunda-feira, às oito da manhã, e chegou na terça-feira, às seis da tarde, depois de várias conexões. Soube que grande parte da população local, quando precisa ir à capital do estado, gasta até sete dias de barco, existe um voo, mas com poucas operações por semana e preço inacessível para a maioria dos moradores. Conversando com as pessoas, descobriu que 80% delas nunca haviam saído da tríplice fronteira: conheciam o lado peruano, em Santa Rosa, e o lado colombiano, em Letícia, mas não a capital do próprio estado.
Uma terceira história ficou com ele em Novo Airão, também no Amazonas. Foi tentar gravar numa comunidade a três dias de barco de linha do centro do município ou 18 horas, se fosse de voadeira, embarcação mais rápida e aberta. Lá soube da história de um senhor de 89 anos que, apesar de ter nascido no mesmo município de Novo Airão, nunca havia conhecido a sede da cidade. Só foi vê-la quando precisou de atendimento médico de urgência e teve que ser retirado da comunidade.
Boa Sorte cita ainda Serra dos Alves, em Minas Gerais, e Peixe, no Tocantins, como exemplos de lugares sem cobertura, em contraste com destinos já saturados como Porto Seguro e Fernando de Noronha. “Eu gosto muito do lado B, exatamente também porque eu quero mostrar que o lado B do Brasil tem valor, tem peso e tem gente aguerrida”, disse.
Foi esse olhar que o trouxe para Vitória da Conquista, depois de anos entre Salvador e São Paulo “sentir o cheiro do sertão, sentir o cheiro da chuva que bate no chão, que eu acho que são coisas muito nossas”.
“O sertanejo carrega consigo coragem, resiliência, fé, persistência e um pouquinho de malícia. E eu conheci sertanejos para além do sertão.”
Repórter: Kamile Cardoso
Fotógrafo: Lua Ife
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia




