Katiana Rigaud, Fernando Costa Lino e José Sérgio Batista dividiram a mesa em Mucugê para falar sobre memória, autoria independente e os caminhos que levaram um coletivo a se tornar editora
Antes de virar editora, a Raiz Livraria foi um punhado de cartas e pacotes. Um clube de assinatura que levava livros de autores independentes de todo o Brasil a leitores espalhados pelo país. A pandemia, que isolou tanta gente, foi paradoxalmente o que aproximou esse grupo do encontro presencial. Terminada pandemia, vieram os eventos, os abraços, o Free Café, que ficou conhecido entre os leitores baianos, em Salvador. E o clube, sem deixar de ser clube, virou algo maior: um coletivo de escritores da Bahia.
Foi essa história, contada por Katiana Rigaud, uma das fundadoras da Raiz Livraria, que abriu a mesa “A história por trás da história: semente, raiz, árvore, fruto”, na Fligê 2026, mediada por Katiana Rigaud, nesta sexta-feira (14). Ao lado dela, Fernando Costa Lino e José Sérgio Batista, autores independentes que hoje colhem, junto ao coletivo, os frutos de um projeto pensado para durar.
“Somos amigos de verdade. E isso que faz tudo valer a pena”, resumiu Katiana, ao explicar por que insiste em chamar o grupo de arte-amizade. Segundo ela, foi observando as próprias mesas de bate-papo que a fundadora percebeu o que tornava os livros do coletivo especiais: não era só o texto, era a trajetória de quem escrevia. “Os leitores se conectam como um leitor, como um autor”, disse. Dessa percepção nasceu o livro que dá nome ao projeto, uma coletânea de contos autobiográficos e literários que registra a memória de cada autor do grupo.
O título da mesa segue a metáfora que a própria Katiana cultiva para contar a trajetória da editora. “A gente sempre diz que a gente é uma sementinha boa, que germinou, criou raiz. “A raiz virou árvore na Bienal do Livro, apresentada em um momento que ela descreve como um dos mais emocionantes da história do coletivo. Na Fligê, chegou a vez dos frutos: os livros lançados sob o selo que, de coletivo informal, se consolidou como editora.
Um desses frutos é “Memórias de um herói sonhador”, terceiro livro de Fernando Costa Lino e sua primeira autobiografia. Para o autor, participar da Fligê, tem um significado que vai além do lançamento. É a primeira vez que viaja sozinho, organizando a própria rotina longe de casa, entre trilhas nos arredores de Mucugê e os momentos de escrita que a viagem, segundo ele, acabou inspirando. “Acaba sendo até bom você dar um tempo da realidade, até para ajudar com essas coisas da inspiração”, contou, ao descrever como aproveitou os intervalos da feira para adiantar outros projetos.
Já José Sérgio Batista, autor de “Silêncio dos Labirintos”, destacou o papel da Fligê como ponte entre autores independentes e um público que vai além de Mucugê. “A Fligê abre um espaço muito bom para nós, autores independentes, porque é uma feira que já está consagrada no circuito literário baiano e também traz estudantes e leitores das cidades vizinhas, como Andaraí, Itaitê e Seabra.” Para ele, a feira funciona como vitrine regional, ampliando o alcance de um trabalho que, muitas vezes, escapa aos holofotes da grande mídia. “Nós somos um coletivo de autores baianos, independentes e contemporâneos”, resumiu.
Entre a semente do clube de assinatura e os frutos apresentados em Mucugê, a Raiz Livraria construiu um caminho que mistura afeto e ofício. Na Fligê 2026, esse percurso ganhou uma mesa inteira para ser contado, e autores como Fernando Costa Lino, José Sérgio Batista e Katiana Rigaud para mostrar onde esse enraizamento os levou.
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.
Texto: Samara Dias
Fotos: Lua Ife




