Entre passarinhos de papel, Itamar Vieira Junior e Terezinha Bastos reúnem crianças na Fligêzinha para celebrar a empatia e o lançamento do livro “Chupim”
Nas asas da memória e sob o céu sereno da Chapada, a Fligêzinha foi palco de um encontro singelo e profundo durante o lançamento de Chupim, o primeiro livro infantil publicado pelo escritor baiano Itamar Vieira Junior. Em uma atmosfera entretecida por afeto, a contadora de histórias Terezinha Bastos deu voz e movimento à narrativa, enquanto o próprio autor acompanhava a apresentação com o som cadenciado de um ‘pau de chuva’, cujos estalos de sementes simulavam o roçar das asas, o barulho do vento e a vida que brota das roças de arroz.
Com uma entrega cênica delicada e envolvente, Terezinha transportou as crianças diretamente para dentro da história. Entre gestos suaves e chamados à participação, a narradora pedia que elas imitassem o som dos pássaros ou o farfalhar das folhas, transformando a plateia em parte viva da paisagem. Atentas, de olhos arregalados e passarinhos de papel em mãos, as crianças acompanharam cada palavra com um silêncio respeitoso que rapidamente dava lugar ao riso e ao encanto coletivo.
Ao lado de Terezinha, Itamar Vieira Junior assistia a tudo com um sorriso largo, visivelmente emocionado e hipnotizado pela reação do público. Olhar para a própria obra reanimada na voz da contadora e refletida no brilho dos olhos infantis trouxe ao autor uma alegria genuína, a confirmação de que a palavra escrita ganha a sua forma mais bonita quando habita o imaginário dos pequenos.
Após a apresentação, um diálogo afetuoso aproximou o escritor da garotada sobre o nascimento de Chupim e a relação do ser humano com a natureza. Itamar explicou que a ideia do livro brotou de uma semente já presente em seu aclamado romance Torto Arado, no qual as crianças das fazendas tinham a tarefa de espantar os chupins das lavouras. “Na história para adultos, ninguém defende o chupim, porque diziam que ele era uma praga. Mas, numa história para crianças, a gente sabe que a criança é capaz de defender o passarinho”, pontuou o autor. Durante a conversa, as crianças concordaram que o chupim não é praga e que havia arroz suficiente na roça para ser compartilhado entre homens e pássaros, compreendendo que, assim como as famílias trabalhadoras, o pequeno pássaro apenas buscava alimento e o direito de viver livre.
Essa troca direta entre um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea e as crianças de Mucugê revelou-se um momento de rara potência para a formação leitora e o incentivo aos sonhos. Ao perguntar sobre os desejos de futuro de cada uma – entre futuros vaqueiros, professoras, veterinárias e motoristas -, Itamar desmistificou o ato de escrever. O autor encorajou os pequenos ao afirmar que a escrita não é algo distante ou impossível, mas sim um hábito simples como cantar ou dançar, que nasce do gosto pela leitura diária e pela invenção de histórias. Ao mostrar que a literatura é um caminho acessível, o escritor plantou a certeza de que todos ali podem sonhar alto e contar suas próprias trajetórias.
Para Terezinha Bastos, realizar essa apresentação ao lado de Itamar Vieira Junior teve um significado pessoal profundo. Criada no meio rural, a contadora revelou que cada palavra do texto ressoou com suas próprias vivências na terra, tocando sentimentos guardados no fundo da memória. Emocionada por contracenar com o autor, ela ressaltou como o lúdico e a sensibilidade se uniram de forma mágica naquele momento e expressou sua imensa gratidão à Fligê por proporcionar um espaço tão caloroso, cuja arquitetura e energia afetuosa fazem o coração pulsar mais forte.
Assim, entre revoadas fictícias e reais, a Fligêzinha reafirmou a literatura como um território de acolhimento e liberdade. Ao dar liberdade ao chupim e voz às crianças, o evento mostrou que cultivar leitores é, acima de tudo, ensinar a olhar o mundo com empatia e manter bem abertas as janelas do sonho.
Texto: Carol França
Foto: Lua Ife Fotografia






