Na oficina “Praticando o Slam”, a poeta e mestre de cerimônias Negafyah ensinou técnicas de escrita, respiração e recitação e mostrou que toda periferia tem histórias esperando para serem gritadas
Havia crianças e adultos sentados lado a lado, folhas e canetas em mãos, ouvidos atentos. Não era uma aula comum de literatura. Era um convite para escrever com o corpo inteiro e, depois, dizer em voz alta o que se escreveu ali mesmo, na hora, com o apoio de técnicas de respiração para sustentar a voz e dar ritmo aos versos. Assim se passou a oficina “Praticando o Slam”, uma das atividades mais vibrantes da programação da Fligê 2026, conduzida pela poeta, MC e ativista soteropolitana Negafyah, nome artístico da escritora Fabiana Lima.
Nascida e criada no bairro de Sussuarana, na periferia de Salvador, Negafyah carrega mais de catorze anos de trajetória entre a literatura, a música e a educação. Sua história com a poesia começou cedo, em diários guardados na infância, e ganhou corpo nos saraus de Salvador, primeiro no Sarau Bem Black, depois no Sarau da Onça, na própria Sussuarana, onde encontrou uma juventude com a qual se identificava. Foi ali, ao lado de outros colegas, que fundou o coletivo Resistência Poética, levando poesia aos coletivos da cidade.
O caminho seguiu para as batalhas de poesia falada: campeã estadual da Bahia em 2015, representante baiana no torneio nacional em São Paulo no ano seguinte e, em 2018, representante do Brasil no Campeonato Mundial de Poesia Falada, na Flupp, no Rio de Janeiro. Em 2017, ao lado de Luiz de Mila Singa, fundou o Slam Damas Bahia, projeto que já soma quase uma década de batalhas de poesia ininterruptas. A trajetória internacional veio na sequência, com a turnê “Vozes em Poesia”, que levou oficinas a Cabo Verde e Portugal, onde também lançou o livro “Ancestrais Escrituras”. Em 2025, veio o primeiro livro solo, “Faiador do Amor”, homônimo ao espetáculo que já circula desde 2024 e que chegou a ser semifinalista do Prêmio Oceanos, um dos mais importantes da língua portuguesa.
Foi toda essa vivência que Negafyah trouxe para dentro da oficina na Fligê, realizada na manhã deste sábado (15). Mais do que técnica de escrita, ela apresentou aos participantes um movimento, o do slam, batalha de poesia falada e autoral nascida em 1984, em Chicago, pelas mãos do poeta Mark Smith, e trazida ao Brasil em 2008 pela poeta Roberta Estrela D’Alva. Um movimento que, segundo a própria Negafyah explicou durante a atividade, já reúne mais de cem saraus de batalha espalhados pelo país — só em São Paulo, mais de cinquenta.
Para ela, o slam cumpre um papel que a escola tradicional muitas vezes não alcança: o de aproximar a literatura da vida real de quem escreve. “É um movimento que dá palco para que outras pessoas se transformem nesse escritor que se descubra também enquanto artista”, disse a poeta, lembrando que os poetas canônicos, ainda que importantes, nem sempre dão conta de traduzir a realidade de quem vem da periferia.
Entre os presentes na oficina estava Daiana Rodrigues, professora da rede estadual de Barreiras e integrante do Clube Lá, que participa da Fligê pelo segundo ano consecutivo. Para ela, a experiência de escrever e recitar ao lado de Negafyah foi um dos pontos altos da feira. “A experiência de conhecer a Negafyah aqui nessa oficina foi enriquecedora. O trabalho do slam das Minas é um trabalho riquíssimo aqui na Bahia”, contou.
Ao final do encontro, entre crianças que testavam a força da própria voz pela primeira vez e adultos que revisitavam versos antigos, ficou a mensagem que Negafyah carrega em toda a sua trajetória: a poesia falada não é apenas uma forma de arte, mas uma ferramenta de resistência e afirmação para quem vem das periferias, e cada novo slam que nasce é também um novo palco para essas vozes.
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.
Texto: Samara Dias
Fotos: Igor Chaves




