Memória e escrita são temas de encontro sobre literatura e formação na Fligê

Mesa reuniu literatura, psicanálise e filosofia para refletir sobre formação, memória e os caminhos do autoconhecimento 

Na tarde de sábado (15), o Centro Cultural recebeu a primeira mesa do terceiro dia da Feira Literária de Mucugê. O encontro reuniu literatura, psicanálise e filosofia em torno de uma pergunta comum: como as histórias que lemos e escrevemos ajudam a construir quem somos. Batizada de “Romance de formação e coração de estudante: vivências por sobressaltos das tramas da linguagem”, a conversa contou com mediação de Suzala Reis, historiadora, psicóloga e escritora, e participação do psiquiatra e escritor Eduardo Ledo, do psiquiatra, filósofo e psicanalista Antonio Teixeira e da escritora, atriz e pesquisadora Carluce Couto, autora do romance “Aos que morrem em silêncio”.

Suzala abriu o encontro situando a literatura como resposta a um momento de instabilidade coletiva. “Nós vivemos fragilizados diante da existência, e a literatura e a escrita são um caminho para se refazer”, afirmou a mediadora, conduzindo a plateia pela ideia da escrita como um lugar possível de travessia diante do caos contemporâneo.

O psiquiatra e escritor Eduardo Ledo falou sobre “Paris bem vale uma missa”, sua obra ambientada no período em que viveu na capital francesa, na transição da adolescência para a vida adulta. Segundo ele, o livro nasceu de uma impaciência com a própria memória e funcionou como uma espécie de acerto de contas com aquela fase da vida. Ledo definiu o livro como uma homenagem amorosa às pessoas que atravessaram esse período com ele, entre elas o pai, com quem aprendeu lições importantes ainda em Vitória da Conquista, cidade natal, além dos amigos feitos em Paris que o ajudaram a superar os dramas de viver no exterior, relatados, segundo ele, com humor e leveza no livro.

“A obra na verdade é um resumo de um período da minha formação, um período que eu vivia na França. Mas não é um texto de exaltação de grandes conquistas, na verdade é um percurso pelas dificuldades, pelo ridículo, pelo humor de experiências com pessoas extraordinárias com quem eu convivi. Foi uma tentativa de recuperar esse tempo e de cristalizá-lo para que ele não se perca”, contou o autor emocionado. Para Ledo, o livro cumpre ainda uma função coletiva. “O livro serviu para substancializar memórias, e as coisas contadas ali servem para que as pessoas que viveram aqueles dias possam revisitar o momento e relembrar de coisas que podem e que não podem ser ditas.”

Amigo de Eduardo Ledo e um dos personagens do livro, Antonio Teixeira dividiu com o público a experiência de se ver retratado na obra. “Eu fiquei muito tocado com a generosidade com que ele construiu a minha personagem. Esse livro de memórias me encantou de uma maneira delicada e sutil, ele me apresentou a minha própria lembrança”, disse, confessando-se envaidecido com a descrição feita pelo amigo.

Teixeira também refletiu sobre a natureza da memória enquanto matéria-prima literária, descrevendo Eduardo Ledo como guardião de um patrimônio afetivo. “O Eduardo é o guardião dessas memórias, que podemos chamar de tesouro ou fortuna. A memória é uma construção entre um relato verossímil do que já existia e o desejo criativo de algo que se quis que existisse.”

Embora autobiográfico, o livro de Ledo foi apresentado na mesa como um romance de formação, ao reconstituir dez anos de amadurecimento do escritor e aproximar fatos reais das características do gênero. O psicanalista destacou ainda a posição de observador estrangeiro que atravessa o livro, além dos vínculos e conexões humanas estabelecidos na Paris vivida pelo autor.

Carluce Couto, autora de “Aos que morrem em silêncio”, trouxe à conversa sua personagem Bebel como outro exemplo do romance de formação: uma mulher que se desencontra de si mesma para depois se buscar. “A gente consegue perceber rastros da história da infância, adolescência e juventude da personagem”, explicou a autora, situando Bebel como um percurso de formação dentro da própria trama. “Bebel me ensinou a ter paciência com o tempo das coisas. Bebel não sabia o que queria, e ela foi encontrar o desejo dela diante daquele caos.”

Na plateia, a fala de Carluce sobre o próprio processo de escrita foi um dos pontos que mais tocou o estudante de Letras Zahir Cardoso. Para ele, a mesa reafirmou a literatura como espaço de autoconhecimento. “Eu acredito que o principal aprendizado que eu tive foi realmente a literatura não apenas como um espaço de eternizar as memórias, mas talvez de se reencontrar com elas. A literatura enquanto processo de escrita é um lugar de autoconhecimento, de se conhecer, de descobrir o que tá ali dentro que tá saindo para o mundo. Foi uma mesa muito boa, muito proveitosa.”

Repórter: Pedro Novaes
Fotógrafo: Thiago Gama

Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.  

O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.






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