Escravidão, garimpo e pedra: mesa do Iphan reconta a formação da Chapada Diamantina

Larissa Souza, Fabiane Santos Ribeiro e Valdenberg Trindade percorrem o ciclo do diamante de Mucugê a Lençóis e propõem o termo “barroco chapadeiro” para pensar a arquitetura da Chapada Diamantina.

Antes de virar patrimônio, a Chapada Diamantina foi pedra bruta, palha e suor. Foi essa história, escrita por mãos de garimpeiros muito antes de qualquer tombamento, que a mesa temática “Caminhos da Construção Histórica, Cultural e Arquitetônica do Barroco na Chapada Diamantina” trouxe à Feira Literária de Mucugê (Fligê), com a participação de Larissa Souza, representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Fabiane Santos Ribeiro e o escritor Valdenberg Trindade.

Larissa abriu a apresentação com uma cronologia da ocupação da região a partir da mineração. “A riqueza não ficava com eles, eles eram trabalhadores. Tem um passado escravagista também nessa exploração do ouro”, afirmou, referindo-se aos garimpeiros que deram origem aos primeiros povoados da Chapada. Segundo ela, as moradias desses trabalhadores refletiam essa desigualdade: “Os locais onde eles moravam eram habitações muito mais simples, muitas vezes até em espaços que existiam nas rochas, cobertos com palha”, contou.

Esse primeiro assentamento, contou Larissa, começou em cabanas de tecido e foi se consolidando à medida que a riqueza da região atraía mais moradores, chegando a somar cerca de trinta mil habitantes. No espaço hoje ocupado pelo Parque Luiz Santos, por exemplo, existiam casas de pedra construídas por garimpeiros em lotes de exploração manual, sem uso de maquinário. “Quando acabava, ia para outro lugar do garimpo também”, completou.

Essa mesma lógica de expansão apareceu nos slides que detalharam etapas posteriores do ciclo. Em Andaraí, caminhos e rios estruturaram o crescimento territorial da mineração; em Igatu, a ocupação ficou diretamente ligada ao garimpo, com construções em pedra e forte adaptação ao relevo, hoje vistas nas ruínas e estruturas mineradoras que restaram. Já Lençóis, fundada em 1845, representou o auge desse ciclo: tornou-se o principal entreposto comercial da região, com comércio internacional, comerciantes estrangeiros e a maior acumulação de riqueza, momento em que, segundo a apresentação, “o garimpo transforma-se em sociedade urbana”.

Coube a Valdenberg Trindade situar o sentido político da mesa. Para o escritor, o debate representou uma tomada de posição diante da fragmentação de narrativas sobre a arquitetura da Chapada. “A Chapada é muito rica, tem diversos ciclos, que se inicia com o Rio de Contas de uma forma mais tardia, Mucugê, Lençóis e outras cidades também, Andaraí e outras cidades já no ciclo do diamante, Rio de Contas no ciclo do ouro”, explicou. Segundo ele, a proposta foi abordar “esse conjunto, essas camadas de formação da Chapada Diamantina que compreende não somente os monumentos e as atrações naturais, mas a gente da Chapada, a cultura, a história, as memórias e o pertencimento”.

Foi nesse contexto que Valdenberg apresentou o termo “barroco chapadeiro”, expressão cunhada pelos próprios participantes da mesa, e não um conceito consolidado na historiografia da arquitetura. “Essa ideia que nós batizamos até de barroco chapadeiro”, disse, definindo-a como “esse conjunto maravilhoso que eu acho que até o mundo torna essa coisa da admiração pela Chapada Diamantina uma coisa mais afetiva”.

A apresentação também levantou uma tensão que atravessa hoje as cidades históricas da região: como conservar a autenticidade dos centros históricos sem transformá-los em cenários turísticos, diante de pressões como gentrificação e novas demandas urbanas. Para a equipe do Iphan, o patrimônio da Chapada Diamantina não pode ser entendido apenas como arquitetura, mas como uma composição entre relevo, mineração, religiosidade, paisagem natural e memória social, já que separar esses elementos é perder a essência do conjunto.

A conclusão da mesa resume essa visão: talvez o maior patrimônio da região não esteja em nenhum edifício isolado, mas na forma como ruas, montanhas, largos, casarios, rios e igrejas dialogam entre si, formando uma paisagem em que arquitetura e natureza deixam de ser categorias distintas. A verdadeira obra de arte, nesse sentido, é a própria cidade inserida na paisagem.

Repórter: Kamile Cardoso 

Fotógrafo: Thalis Ribeiro 

Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021. 

O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia


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