Entre versos e canções, a Fligê celebrou a Bahia de Jorge Amado e Dorival Caymmi

Mesa sobre os dois ícones baianos misturou debate acadêmico e show ao vivo e emocionou plateia neste sábado (15)

A tarde deste sábado (15) na Fligê teve cheiro de mar, de terreiro, de feira e de cais. Não porque alguém tenha trazido esses cenários para dentro da tenda, mas porque a mesa “Canções para ler, romance para cantar: um enfoque amadiano” fez exatamente isso que a boa literatura sabe fazer: transportar lugares através da palavra e da melodia. A conversa reuniu Juca Badaró, jornalista de formação, doutor e mestre em Memória: Linguagem e Sociedade e pesquisador da obra de Jorge Amado; Marielson Carvalho, mestre e doutor em literatura e cultura, professor e um dos maiores estudiosos do cancioneiro de Dorival Caymmi no Brasil; e o músico Rogério Grillo, que emprestou o violão e a voz ao debate. Juntos, os três se debruçaram sobre a intersecção entre dois nomes que, cada um à sua maneira, inventaram uma ideia de Bahia que atravessou o tempo: Jorge Amado, na literatura, e Caymmi, na canção. Logo no início, lembrou-se que, nas histórias de Jorge Amado, a Bahia tem ritmo, cheiro, corpo e voz, e que os personagens do escritor atravessam as páginas como quem atravessa uma roda de samba, um terreiro, uma feira, um cais.

Para Juca Badaró, a mesa dialogou diretamente com o tema desta edição da Fligê, “Literatura e muitas outras formas de dizer”. Segundo o pesquisador, Jorge Amado e Caymmi construíram juntos, cada um em sua linguagem, uma ideia de baianidade que segue viva até hoje. “A gente está tratando de dois autores, de dois pensadores e de dois artistas brasileiros, baianos, que fizeram juntos com as suas obras, Caymmi na música, Jorge Amado na literatura, uma espécie de construção de uma ideia de baianidade que até hoje está presente na nossa vida”, afirmou.

Badaró destacou que a ideia de uma Salvador mestiça, alegre e popular está profundamente enraizada no regime discursivo dos dois artistas, e que essa estética, transposta pelas canções de Caymmi e pelos romances de Amado, acabou construindo não apenas uma imagem da Bahia, mas uma invenção de Brasil. “Foi uma alegria, foi muito bom estar com o Marielson, especialista em Caymmi, eu que sou amante de Jorge Amado, e o Rogério Grillo, que tocou as canções de Caymmi. Eu acho que foi maravilhoso”, resumiu.

Marielson Carvalho, autor de obras de referência sobre o cancioneiro caymmiano, reforçou o caráter também social e político do debate. Segundo ele, a mesa não se limitou a celebrar as obras dos dois artistas, mas propôs uma reflexão sobre como Amado e Caymmi trataram, à sua maneira e em seu tempo, de temas como racismo e gênero. “Tratamos de questões delicadas, como a questão do racismo, a questão do gênero, com pontuações bem rápidas, mas para mostrar o quanto Jorge Amado e Dorival Caymmi não estiveram alheios a essas questões”, explicou.

Para o professor, a presença da música ao vivo, tocada por Grillo, transformou o encontro em algo além de uma mesa de debate: “A música mediou com a literatura e transformou a mesa em um show, porque foi um show de literatura e de música ao mesmo tempo”. Carvalho, que participava pela primeira vez da Fligê, também elogiou a organização da feira e a curadoria do evento, chamando a experiência de aprendizado, e destacou que a mesa expressou com propriedade o tema desta edição, ao apresentar outras formas de dizer a Bahia, do Recôncavo a Salvador, reconhecendo que o estado se vê representado nessa imagem mesmo fora da capital.

O impacto da mesa também ficou evidente entre o público. Pela primeira vez na Fligê, o advogado Arthur Azevedo não escondeu o entusiasmo e classificou o encontro como a melhor mesa da feira. “De verdade, foi a melhor mesa da Fligê. A música popular brasileira teve seu auge entre os anos 30 e 40, indo até os anos 60 e 70, revelando nomes como Vinícius de Moraes, Toquinho, Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, verdadeiros deuses da música brasileira. E, do lado da literatura, Jorge Amado é o maior escritor baiano de todos os tempos e o segundo mais vendido do Brasil, atrás apenas de Paulo Coelho. Realmente, estou encantado”, afirmou.

Já a professora e escritora Alana Freitas, de Feira de Santana, também estreante na Fligê, definiu o encontro como um casamento entre a palavra escrita e a palavra cantada, que uniu tudo o que há de melhor para aproximar o público da arte, da música e da literatura, ao reunir diferentes formas de contar as várias Bahias presentes na obra dos dois artistas. “A ideia de Bahia como berço está na obra deles. Muito do que se entende por Bahia, do imaginário coletivo, vem das obras de Jorge Amado e das músicas de Dorival Caymmi”, avaliou.

Freitas elogiou ainda a forma acessível como o debate foi conduzido, capaz de atrair tanto especialistas quanto quem nunca leu uma obra dos dois autores, e destacou que esse é justamente um dos papéis da Fligê: plantar sementes. “Não dá para garantir, em termos de percentual, mas a semente é plantada. Falar sobre isso, fazer com que isso aconteça numa praça pública, trazendo artistas, é também um convite. Aqui é, sobretudo, uma consagração da literatura, seja oral, seja escrita, dessa ficção que acompanha a gente desde que o mundo é mundo”, concluiu.

Texto: Samara Dias

Foto: Igor Chaves

Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.

O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.


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