Na Fligê, Tatta Zakttembo e Marcos Torres discutem como a literatura pode desmontar os relatos que o Ocidente ergueu como história universal
Tem histórias que só existem porque outras foram silenciadas. Foi esse o fio que guiou a roda de conversa “Desatando narrativas eurocêntricas”, na Fligê, quando os escritores Tatta Zakttembo e Marcos Torres sentaram-se lado a lado para desmontar, com literatura, os relatos que o Ocidente insiste em chamar de história universal. Diante do público, entre risos e silêncios pesados, ficou claro que ali não se contava história, desconstruía-se.
Autora de “Como matar um homem branco”, Tatta Zakttembo não pediu licença para o título provocador. Segundo ela, o livro revisita o que se ensinou desde a Mesopotâmia e o Egito Antigo para escancarar o que ficou de fora dos manuais: o racismo, o machismo e o elitismo dos filósofos greco-romanos, erguidos como modelo de civilização. Para a autora, dizer essa verdade é matar a santidade fabricada em torno da cultura branca.
Marcos Torres, que caminha entre a literatura e as artes visuais, trouxe outra chave para o mesmo problema. Em “História pela voz de uma onça”, ele usa humor e linguagem popular para tratar de temas sérios sem abandonar o riso, uma forma, segundo ele, de romper a hegemonia de uma literatura branca através do prazer da leitura. Já em “Chão arejado”, revisita a fotografia do abutre observando uma criança durante a fome no Sudão, nos anos 1980 e 90, imagem premiada, mas usada para condenar o animal e o fotógrafo por um sofrimento que, meses depois, se provou não ser aquele retratado ali. Para Torres, o gesto do urubu não é violência: é limpeza, é natureza cumprindo sua função.
Entre o público, quem também levava essas questões para casa era a estudante Karina Guimarães, de Ilhéus. Para ela, rodas como essa são um chamado direto à sua geração: “Sabemos que temos que fazer uma nova mudança na sociedade.” Uma frase simples, mas que resume bem o que a Fligê propõe a cada edição: não apenas contar histórias, mas reescrever quem tem o direito de contá-las.
Repórter: Kamile Cardoso
Fotógrafo: Igor Chaves
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia




