Com curadoraia de Patrícia Moreira, mostra audiovisual da Fligê percorreu ancestralidades, diversidades e novos olhares sobre o mundo
Durante a Feira Literária de Mucugê, as histórias ganharam diversas formas de existir, uma delas nas telonas. Na FligêCine, espaço dedicado ao audiovisual na programação, palavras, imagens, sons, corpos e memórias se encontraram em uma seleção de filmes que reafirma o cinema como uma forma de leitura e interpretação do mundo. Com curadoria da cineasta Patrícia Moreira, a mostra reuniu produções baianas ou realizadas com a participação de profissionais da Bahia, percorrendo temas como ancestralidade, memória, diversidade, representação, infância e imaginação.
A proposta parte de uma compreensão ampliada da própria literatura segundo a curadora. Considerando o tema deste ano que traz para o centro da discussão as múltiplas linguagens, o cinema aparece como outra possibilidade de narrar e preservar experiências.
A programação foi organizada em três percursos: Raízes emCENA – Cinema, Memória, Ancestralidades e Cultura Baiana, Diferenças emCENA – Diversidade, Representação e Novos Olhares e Sonhos emCENA – Sessão Infantil: Encantamentos, Imaginação e Natureza. Juntos, os eixos conduziram o público por diferentes maneiras de perceber memórias, sujeitos e até lhe ofereceram possibilidades de imaginar outros mundos.
Na sexta-feira (14), o primeiro percurso levou à tela histórias atravessadas pela ancestralidade e pelos saberes culturais. Entre os filmes exibidos estiveram “Baobá – Árvore do Esquecimento”, de Murilo Akeem, que investiga a identidade de pessoas negras que desconhecem seus sobrenomes e suas árvores genealógicas; “Isso é o que sinto”, de Jafari Akin, que aproxima corpo, hip-hop e ancestralidade africana; e “Mulher Vestida de Sol”, da curadora Patrícia Moreira, uma animação experimental sobre memória, consciência e seres ancestrais.
Também integrou a programação “O Rito e a Festa – A Folia de Reis da Tabua”, do Coletivo Cine Gameleira, que acompanha os guardiões da tradição da Folia de Reis na comunidade da Tabua, em Pindaí, revelando os desafios de manter viva uma manifestação cultural diante das transformações do tempo.
À tarde, a memória e o patrimônio cultural permaneceram no centro da programação com “Maré”, de Amaranta, que acompanha três gerações de mulheres em um quilombo baiano, e “A vida é da cor que pintamos,” de Cândida Luz Liberato e Jorge Alfredo Guimarães, dedicado à vida e à obra do artista e cineasta Chico Liberato e à trajetória de realização de Boi Aruá. A sessão contou com mediação de Patrícia Moreira.
À noite, o público acompanhou “Corre um Rio em Mim”, também dirigido por Patrícia Moreira, uma animação em stop motion que atravessa memória, sonho e ancestralidade a partir da jornada de uma jovem indígena. Na sequência, “3 Obás de Xangô”, de Sérgio Machado, abordou a amizade e o legado de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, relacionando suas obras à cultura, à religiosidade e ao povo baiano. A sessão que estava lotada teve comentário de Juca Badaró e mediação de Patrícia.
No sábado (15), o percurso da FligêCine se voltou para as Diversidades, propondo uma reflexão sobre a presença de diferentes corpos, identidades e experiências nas telas e sobre a potência do audiovisual para construir narrativas mais plurais.
A programação da tarde reuniu “Como nasce um rio”, de Luma Flores, que aborda de forma poética e onírica o processo de autodescoberta sexual e aceitação dos desejos, e “Saudade fez morada aqui dentro”, de Haroldo Borges. O longa acompanha Bruno, um adolescente que vive em um bairro humilde e enfrenta uma doença degenerativa que o fará perder a visão, transformando sua trajetória em uma narrativa sobre diferenças, aprendizagem e novas formas de enxergar a vida.
À noite, a diversidade ganhou novas perspectivas com “Fardado”, de Daniel Biurrum, que acompanha um policial militar gay dividido entre a identidade que precisa esconder e o ambiente em que vive; “Arrebol”, de Duba Rodrigues, sobre um vampiro que procura registros de sua existência após a morte de seu único retratista; e “O Vampiro e a Gazela”, animação dirigida por Rose Panet, que narra o encontro entre um vampiro maranhense de 260 anos e uma gazela encantada.
Mais do que a exibição de filmes, a FligêCine se construiu como um espaço de conversa e reflexão. Para Patrícia Moreira, são justamente esses encontros entre público e obra que dão uma dimensão especial à experiência da mostra. “O mais interessante que tem acontecido aqui no FligêCine são exatamente esses encontros, onde as pessoas se aproximam, assistem ao filme e comentam sobre o filme”, destaca a curadora. Para ela, acompanhar as diferentes percepções despertadas pelas obras tem sido uma das experiências mais significativas da mostra. “É muito bom ver as impressões das pessoas, ver a percepção que elas têm dos filmes, ver de que forma filosófica, poética, estética ou acadêmica que as pessoas veem o filme”, afirma.
A presença da própria curadora entre as realizadoras exibidas também aproxima criação e curadoria. Dois filmes de Patrícia Moreira integraram a mostra, permitindo que ela acompanhe não apenas a recepção das obras que selecionou, mas também os diferentes olhares lançados sobre seu próprio trabalho.
Ao partir das raízes, atravessar as diferenças e chegar aos sonhos e encantamentos, a FligêCine ampliou o território da Feira Literária de Mucugê. O cinema apareceu não como uma linguagem distante da literatura, mas como parte de um mesmo desejo: o de transformar experiências em narrativas e fazer com que histórias, memórias e imaginários encontrem novas formas de permanecer.
Repórter: Pedro Novaes
Fotógrafo: Thiago Gama
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.








