Jealva Ávila, Nadja Nunes, Emile Lima, Márcia Mendes e Núbia Paiva provaram que a literatura infantil baiana é corpo, ritmo e semente de futuro
A Fligezinha não é apenas um canto reservado aos pequenos no mapa da feira; é o coração pulsante onde o tempo desacelera para permitir emoções. Entre olhos atentos e o farfalhar de páginas, a sexta-feira (14) foi marcada por um encontro raro entre a palavra dita, a performance e a urgência de olhar para as crianças como sujeitos de seu próprio sentir. O espaço transformou-se em um refúgio lúdico onde o conhecimento e a emoção caminharam de mãos dadas.
A poesia, quando soprada para uma criança, não cabe nas margens estreitas do papel. Ela exige pés que se movam, mãos que acompanhem o ritmo e vozes que se somem em coro. Às 11 horas, as escritoras Jealva Ávila e Nadja Nunes deram início à programação com a oficina “Poesia Brincante”, uma celebração em que a música e o corpo se tornaram veículos de alfabetização poética.
Para Nadja Nunes, o ambiente da Fligezinha sintetiza a essência da linguagem infantil:
“O tema da Fligê, em específico aqui na Fligezinha, tem tudo a ver com o que a gente está apresentando. É um momento para entendermos que as emoções e o conhecimento têm várias formas de se apresentar: podemos dizer poemas, cantar, falar, escrever e ler. Essa diversidade de expressão sobre as emoções, a alimentação da imaginação e o acesso direto das crianças aos autores é fundamental em um ambiente lúdico de brincar e cantar.”
Complementando a visão de que a arte deve ser semeada desde cedo, Jealva Ávila reforçou o compromisso do escritor com o desabrochar da infância:
“É nesses momentos que começamos a despertar na criança o interesse pela poesia, pelas histórias e pela arte. É muito gratificante levar o nosso ofício de escrever para despertar neles não apenas o desejo de ler, mas também o de criar com alegria e ludicidade. Parabéns à Fligê por essa iniciativa.”
Às 15 horas, o ambiente ganhou postura crítica e afetuosa com a entrada de Emile Lima e Márcia Mendes. As autoras recorreram às cantigas do imaginário popular para ensinar o respeito à vida, transformando a clássica música “Não atire o pau no gato” em uma narrativa sobre o cuidado com a história de Dona Chica, conscientizando a plateia contra a violência aos animais.
Emile Lima, pesquisadora da educação emocional e autora de obras como Léo Camaleão, refletiu sobre como a literatura atua no invisível das emoções das crianças:
“A literatura é a arte de poder dizer o que não está dito. Quando falamos das infâncias, precisamos entender que as crianças vivenciam processos complexos de desenvolvimento e muitas vezes não sabem expressá-los. A literatura consegue acessar esse universo de forma que a criança se identifique com o personagem. No meu livro ‘Léo Camaleão’, abordamos a timidez e o medo de mudar de cor, dilemas que muitas crianças vivem por receio do olhar do outro. Meu papel como escritora é trazer cada vez mais cedo a importância de dar nome ao que sentimos.”
Na sequência, Márcia Mendes trouxe para o centro da roda a literatura negro-afetiva, ressaltando o valor de uma estética que acolhe e eleva a autoimagem das crianças negras:
“A literatura é um território de liberdade. Escrevo trazendo o protagonismo de personagens negros, pois temos mais de 100 tons de pele e diferentes texturas de cabelo que precisam estar representados de forma bonita e positiva nos livros. A palavra não é meramente um sinal, é um signo; por isso, temos um cuidado imenso com o texto e as ilustrações. Queremos que a criança se veja, goste do que vê e que essa literatura contribua para um mundo sem preconceito e sem discriminação.”
O encerramento das apresentações, às 16 horas, trouxe a magia cênica de Núbia Paiva no momento “Tenda das Histórias”. Vestindo uma saia performática recheada de elementos e adereços narrativos, a escritora conduziu histórias como a de Helena com domínio poético do espaço e do improviso.

Núbia ressaltou que a criação para o público infantil exige escuta ativa e constante flexibilidade:
“A narrativa que a gente conta depende muito do público presente. Hoje trouxe uma história pensada para crianças menores, mas o público mudou e precisei improvisar na composição. Estar na feira é um exercício de formação de plateia, onde a gente ensina a concentração da escuta sem reprimir o movimento do corpo da criança, que é naturalmente brincante e dançante. A gente só consegue escrever de verdade para a criança quando compreende a forma como ela pensa e se mantém perto dela.”
Ao reunir poesia, música, educação emocional e afirmação de identidade, as apresentações de sexta-feira provaram que a literatura infantil não é um mero passatempo pedagógico: é uma ponte de afeto, um território de liberdade e um direito de cada criança de inventar a si mesma.
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.
Repórter: Carol França
Fotógrafos: Carol França e Vitor Barboza









