Mesa “Literaturas do ouvir: tradição oral” reuniu Mari Bigio, Maviael Melo e Josemar Pinzoh em uma manhã de poesia, cordel e reflexão sobre os saberes transmitidos pela oralidade
A segunda parte da manhã deste sábado (15) foi tomada de muita poesia e emoção na mesa “Literaturas do ouvir: tradição oral”, durante a Feira Literária de Mucugê. A conversa, que aconteceu no Centro Cultural, reuniu o escritor, pesquisador e professor da UNEB Josemar Pinzoh, o poeta, cantador e cordelista Maviael Melo e a poeta, cantora e contadora de histórias Mari Bigio para refletir sobre a força da oralidade na preservação de histórias, culturas e saberes.
Em sintonia com o tema desta edição da Fligê, “Literatura e múltiplas formas do dizer”, a mesa colocou a escuta no centro da experiência literária. Antes de chegarem aos livros, muitas histórias atravessaram gerações pela voz, pela memória e pelo encontro entre as pessoas. Foi a partir desse lugar que os três convidados compartilharam trajetórias marcadas pela literatura popular e pelas diferentes formas de narrar a vida.
Para Mari Bigio, o cordel foi a porta de entrada para a literatura e permanece como uma das principais formas de conexão com diferentes gerações. Ao lado de Maviael Melo, que a poeta considera um de seus grandes amigos e padrinhos em sua trajetória artística, a participação na Fligê ganhou um significado ainda mais especial por ser agosto, mês em que completa 19 anos de carreira. “Fazer isso na Fligê com esse público que é tão engajado, que é tão presente e atencioso, é um conforto, um afago para a alma de poeta. Eu fiquei muito feliz de participar”, contou.
A relação de Mari com o público infantil também esteve entre os assuntos da conversa. Ela, que costuma brincar dizendo que escreve para crianças “de zero até 148 anos”, falou sobre o desafio de alcançar também os adultos e fazê-los reencontrar a criança que existe dentro deles. Para ela, a literatura de cordel produzida para as infâncias deve ocupar um lugar de reconhecimento e valorização, sem perder sua dimensão popular, lúdica e pedagógica.
Durante a mesa, Mari declamou “Uma menina vestida de jardim”, que conta a história de uma menina que precisava de um vestido novo para uma festa e recebe uma ajuda mágica da natureza, envolvendo o público com a força das palavras e mostrando como a poesia pode alcançar diferentes idades e experiências. O momento reforçou uma das características centrais de sua produção: a capacidade de aproximar crianças e adultos por meio do encantamento.
Maviael Melo também trouxe para a conversa lembranças de sua trajetória e reflexões sobre o lugar da poesia popular na formação das pessoas. Ao falar sobre sua relação com a literatura e com a música, o poeta destacou aprendizados que recebeu da própria vida e, especialmente, do bom humor de sua mãe diante das adversidades.
Para Maviael, a poesia, a arte, o cordel e a educação são caminhos capazes de contribuir para a construção de uma sociedade mais sensível. Ele ressaltou ainda a importância das festas literárias como espaços de encontro entre leitores, escritores e comunidades. “Quando eu vejo as crianças participando, significa que nós teremos seres melhores, leitores, de mais crítica. Eu acho que a poesia, a arte e o cordel contribuem na construção da cidadania, do ser humano e do pensamento”, afirmou.
Ao longo da conversa, o poeta defendeu a literatura popular como uma expressão profundamente ligada à vida e à cultura do povo. Nos coletivos do sertão, destacou, a oralidade constrói um universo fabuloso que também alimenta a literatura produzida nesses territórios. São histórias, causos, versos e ensinamentos que circulam pela palavra falada e se transformam em memória compartilhada.
No encerramento da mesa, Maviael presenteou o público com uma de suas criações mais afetivas, uma poesia que ensina a resolver o cubo mágico enquanto propõe reflexões sobre os desafios e caminhos da própria vida. O brinquedo, que foi o favorito de um de seus irmãos, ganhou novos sentidos quando transformado em poesia. “Eu ganhei de presente do universo aqueles versos daquele cubo”, contou Maviael. Segundo ele, a criação surgiu também a partir da necessidade de encontrar novas formas de aproximação com as crianças, especialmente quando começou a trabalhar com literatura infantil. “Levando isso através da poesia, o cubo ganha muito mais cores, muito mais forma, muito mais movimento.”
A mediação de Josemar Pinzoh ajudou a aproximar as experiências dos convidados de uma reflexão mais ampla sobre a tradição oral. Para o professor e pesquisador, participar daquela mesa foi uma forma de reencontrar a própria origem. “Eu venho do mato, sou filho de pessoas semianalfabetas, venho de comunidade semiletrada, quase ágrafa, em que a oralidade e toda a tradição da comunicação, da narrativa da vida, das fabulações eram coisas orais. Então, para mim, é um grande prazer ter participado disso”, afirmou. Embora tenha construído uma trajetória acadêmica, com doutorado e atuação como professor universitário, Josemar reconhece na oralidade uma parte fundamental de sua formação.
A importância da mesa também foi percebida por quem acompanhou a atividade da plateia. O estudante de Letras Erik Sales destacou o papel da literatura popular na cultura e chamou atenção para o conceito de “oralitura”, utilizado para pensar produções literárias que se constituem a partir da oralidade. “É uma literatura muito rica, é uma literatura que fala do nosso povo, fala da nossa história. A mesa foi muito rica, muito interessante e, para mim, acho que foi uma das mesas mais importantes do evento até agora”, avaliou.
Repórter: Pedro Novaes
Fotógrafo: Thiago Gama
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.













