A literatura baiana na dramaturgia em debate na Fligê

Mediada por Sérgio Farias, mesa reuniu depoimento em vídeo de Cleise Mendes e presença de Jackson Costa, Luciana Comin e Marconi Arap para celebrar a força das histórias, das adaptações e a resistência do teatro no Palco da Fligê

A relação visceral entre a literatura produzida na Bahia e os palcos ganhou o centro dos debates na Fligê durante a mesa “A literatura baiana na dramaturgia”. Mediada pelo professor e encenador Sérgio Farias, a atividade reuniu a atriz e dramaturga Luciana Comin, o diretor Marconi Arap e o ator Jackson Costa, além de contar com uma contribuição em vídeo da professora, pesquisadora e dramaturga Cleise Mendes.

Em sua participação em vídeo, Cleise Mendes contestou teorias do final do século XX que decretavam o “fim do texto dramático”. Para a pesquisadora, a dramaturgia contemporânea vive um momento de vigor e multiplicidade, alimentando-se diretamente da literatura.

“Se você me perguntar como vai a dramaturgia, eu diria: vai muito bem, obrigada! A cada ano surgem mais e mais autores. Uma das formas mais férteis dessa criação tem sido justamente a releitura e adaptação de obras literárias, além do uso de colagens textuais e de peças inspiradas em grandes figuras da nossa herança cultural.”

A professora citou exemplos marcantes da cena baiana, como as adaptações de obras de Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro (Sargento Getúlio) e Itamar Vieira Junior (Torto Arado), além de textos inspirados em personalidades como Lima Barreto, Raul Seixas e Gregório de Mattos.

A atriz e dramaturga Luciana Comin, cofundadora do Grupo Teca de Teatro ao lado de Marconi Arap, destacou como a literatura inspira a criação cênica voltada para crianças e jovens, um público frequentemente negligenciado pelo teatro tradicional.

Ela compartilhou a experiência do espetáculo O Mistério do Teatro Molière, dramaturgia interativa inspirada no gênero policial de Agatha Christie para atrair o público adolescente, e comentou sobre o projeto de adaptação de Os Meninos da Rua Paulo, clássico da literatura universal que ganha contornos atuais ao discutir o direito à cidade e a especulação imobiliária. A dramaturga também relembrou a emocionante leitura dramática de Cartas de Gaza, realizada no festival, ressaltando o papel do teatro em dar voz a narrativas urgentes.

Marconi Arap reforçou a necessidade biológica e humana da ficção, definindo a arte cênica como uma ferramenta indispensável de humanização e resistência contra processos de alienação e padronização.

“A humanidade só se desenvolveu quando conseguiu ficcionar e contar histórias. A arte e a literatura não são meros detalhes: são o que nos impede de virar máquinas. No palco, a recepção da história chega a cada pessoa de modo único, e é essa diversidade que nos faz humanos.”

Encerrando as intervenções da mesa, o ator Jackson Costa emocionou o público ao relatar sua trajetória pessoal e sua profunda ligação com a força da palavra falada e escrita. Relembrando suas origens na feira livre e o aprendizado com o mestre Mário Gusmão, o artista definiu o teatro como um espaço de constante reconstrução e busca por sentido.

“O meu lastro no teatro e na vida é a palavra. A minha busca enquanto artista é compreender a vida e tentar traduzi-la para a plateia. Não existe teatro sem palavra. Em momentos difíceis, é no palco, dizendo a poesia ou o texto de alguém, que eu encontro o meu remédio e ganho asas para voar.”

O encontro na Fligê reafirmou que a cena teatral baiana continua a se reinventar e a encontrar na literatura uma fonte inesgotável de criação, provando que a palavra escrita e a palavra encenada seguem juntas na missão de ler e transformar o mundo.

Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021. 

O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.

Repórter: Carol França
Fotógrafa: Lua Ife


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