Foi na Feira Literária de Mucugê (Fligê) que Negafyah escolheu apresentar pela primeira vez Fyah: Do Ódio ao Amor, espetáculo poético-musical adaptado do livro da artista. Na manhã do domingo (16), a obra chegou ao palco levando para a cena questões que atravessam sua escrita e sua trajetória: o racismo, o genocídio da população negra, o feminicídio e as marcas deixadas por essas violências. Mas, como sugere o próprio título, a narrativa não termina na dor. Ao longo da apresentação, o ódio aparece como sentimento legítimo diante da violência e também como possibilidade de mobilização, enquanto o amor surge como força capaz de reconstruir relações, fortalecer comunidades e produzir outras formas de existência.
A escolha da Fligê para a estreia aproxima literatura e performance e dá uma nova dimensão ao trabalho que nasceu no livro. O que antes estava nas páginas ganha voz, música e presença diante do público. Para Negafyah, levar essas questões à arte é também uma maneira de criar uma comunicação que ultrapasse o discurso racional e alcance quem escuta pela sensibilidade.“A arte está aí justamente para a gente poder conseguir alcançar as pessoas de uma forma sensível, artística. E o poema consegue fazer isso muito bem, consegue impactar, consegue chegar nas pessoas”, afirma.
A apresentação parte de uma palavra carregada de peso: ódio. Para Negafyah, no entanto, esse sentimento não precisa ser apenas destrutivo. Pode também se transformar em força para enfrentar as violências que atravessam a população negra. “O espetáculo é sobre o processo do ódio enquanto superação e também enquanto usar essa ferramenta do ódio para conseguir se organizar melhor”, explica. “O ódio como uma ferramenta, como uma válvula, como um combustível para que a gente possa se organizar, para que a gente possa conseguir alcançar coisas que só o ódio estimula esse processo. Não apenas deixá-lo consumir.”
A reflexão parte das experiências concretas de uma população que convive diariamente com diferentes formas de violência. “Quando a gente fala de ódio, a gente está falando sobre as mazelas sociais que nós, enquanto população negra, sofremos. O genocídio, nós, enquanto mulheres, o feminicídio, todo tipo de preconceito racial que está aí, que é colocado em nossas vidas”, afirma a artista.
É nesse território entre a dor e a potência que o espetáculo se constrói. A proposta não é negar a raiva, mas pensar no que pode ser feito com ela. “Como é que a gente pode usar esse ódio que está inerente na gente, que a gente sente? Como é que a gente pode usar isso?”, questiona Negafyah.
Mas o espetáculo não se encerra na revolta. Se o ódio aparece como combustível para a transformação, o amor surge como outra força capaz de reorganizar a vida. Para a artista, é necessário romper também com a imagem que frequentemente coloca pessoas negras apenas no lugar da dor e da violência. “Além de tudo, é também falar sobre o amor e quanto nós, pessoas pretas, podemos ter esse sentimento. A gente não é só colocado no lugar do ódio”, afirma. “A gente não deixa só se permitir isso, mas como o amor também pode nos transformar.”
Esse amor, na concepção apresentada pela artista, vai muito além das relações afetivas. Ele está na comunidade, na vizinhança, na fé, na ancestralidade e nas relações de cuidado que sustentam a vida coletiva. “Quando a gente está falando de amor, não estamos falando apenas de amor afetivo sexual. A gente está falando sobre o amor da comunidade”, explica.
Em Mucugê, essa dimensão ganhou uma relação particular com o próprio território. Negafyah fala de uma comunidade que percebeu como próxima e acolhedora, onde as pessoas se visitam, convivem e cuidam do espaço em que vivem. “A gente está aqui no Mucugê, em uma comunidade muito belíssima, onde as pessoas parecem se reunir, se visitar, se gostarem, uma vizinhança boa, um cuidado com esse espaço”, observa.
A espiritualidade também ocupa esse lugar de afeto e pertencimento. “A gente também fala do amor da comunidade religiosa, tanto as igrejas quanto também os terreiros de Candomblé, principalmente o terreiro de Candomblé, que eu sou”, conta.
A escolha da poesia como linguagem para abordar temas tão delicados também é parte fundamental da proposta. Para Negafyah, a arte consegue alcançar o público de maneira sensível, criando possibilidades de reflexão sobre assuntos que muitas vezes permanecem escondidos ou tratados como tabu. “Eu acredito que a arte está aí justamente para a gente poder conseguir alcançar as pessoas de uma forma sensível, artística”, afirma. “E o poema consegue fazer isso de uma forma muito bem, consegue impactar, consegue chegar nas pessoas”, disse ela.
A artista também defende que quem produz arte não pode se afastar das questões do seu tempo. Ao citar Nina Simone, reforça a responsabilidade de transformar em criação aquilo que atravessa a sociedade. “A Nina Simone falou que o artista, quando ele não reflete o seu tempo, ele não é um artista completo. Porque o artista precisa refletir o seu tempo, o que está acontecendo ali.”
É nesse compromisso com o presente que Fyah, Do Ódio ao Amor coloca em cena questões como racismo, genocídio da população negra e feminicídio. “Nada mais justo do que a gente ainda precisar refletir sobre questões de racismo, sobre questão de genocídio da nossa população negra, mas agora, principalmente, refletir sobre o feminicídio que está em alta”, afirma.
Negafyah fala a partir de um lugar de experiência e pertencimento. “Eu, enquanto uma mulher negra periférica, faço essa reflexão para que os meus, as minhas, possam refletir também, quem sabe, mudar de perspectiva e o cenário sobre essas ações.”
Na plateia, a poesia encontrou histórias que não eram estranhas ao que estava sendo dito. Professora de Irecê, Rani Dourado assistiu à apresentação e conta que passou pelo espetáculo entre o encantamento e os arrepios. Para ela, a força não estava somente em ver uma mulher negra no palco, mas em reconhecer a transformação de experiências compartilhadas em linguagem artística.
“Eu não via a representatividade só de uma mulher negra, só de uma pessoa que viveu as mesmas histórias que eu, mas que fez dessas histórias a arte. Muitas dessas histórias dela, são como a minha, como a sua, são assim de superação. E a gente tem que ter a arte como esse escape”, declarou.
Já para Enie Miranda, professora de Barra do Mendes e admiradora do trabalho de Negafyah, a apresentação carregava ainda a expectativa de quem aguardava encontrar ao vivo um trabalho que já admirava. Ela conta que não era sua primeira experiência na Fligê, mas que esta edição vinha sendo especialmente marcante. E, quando a artista começou a declamar o poema de que mais gosta, a emoção tomou conta.
“Foi um momento muito emocionante, estava superaguardado esse momento com a Negafyah. E quando eu cheguei aqui, que já vi ela declamando o poema que eu mais amo, foi realmente de chorar. “Quando eu cheguei aqui, que já vi ela declamando o poema que eu mais amo, foi realmente de chorar, incrível mesmo. Agradeço a oportunidade ao Universo de estar aqui hoje na presença dela e apreciando o trabalho dela, que é maravilhoso, incrível”, disse.
O espetáculo aborda temas sensíveis, entre eles aborto e questões relacionadas à legalidade, além de racismo, genocídio da população negra e feminicídio. Por isso, embora seja destinado a todos os públicos, Negafyah acredita que a juventude, os adultos e as pessoas da melhor idade possam estabelecer uma relação especialmente intensa com as questões apresentadas.
“É um espetáculo para todo mundo, crianças, adultos. No entanto, eu acredito que a juventude, as pessoas adultas e a melhor idade consigam sentir um impacto maior desse espetáculo, porque a gente vai falar de alguns temas sensíveis sobre aborto, sobre legalidade”, explicou a poeta.
A arte, nesse contexto, funciona como uma porta de entrada para conversas que nem sempre encontram espaço no cotidiano. Em vez de apresentar respostas prontas, a poesia provoca perguntas. Em vez de afastar o público pela dureza dos temas, aproxima pela emoção. É justamente essa capacidade de diálogo que a artista pretende levar para além de Mucugê, fazendo da estreia na Fligê o primeiro passo de uma trajetória que deverá alcançar outros públicos e territórios brasileiros.
É também por isso que Fyah: Do Ódio ao Amor não fala apenas sobre o ódio. Fala sobre o que fazer com a raiva, com a dor e com as marcas deixadas pelas violências sociais. Fala sobre transformar sentimentos em consciência e movimento. E fala sobre a possibilidade de pessoas negras também se reconhecerem no amor, no cuidado e na construção de vínculos. “É um espetáculo para fazer a gente refletir, para que as pessoas possam refletir sobre esses sentimentos, que eles são legítimos e como eles podem usar esses sentimentos”, resume Negafyah.
A passagem da artista pela Fligê também foi marcada pela experiência de estar em Mucugê. Ela já havia visitado a cidade em 2019, mas conta que, naquela ocasião, não teve tempo de conhecê-la profundamente. Desta vez, entre uma atividade e outra, caminhou pelas tendas literárias, visitou restaurantes, assistiu a shows e encontrou outros artistas. “Foi maravilhoso, eu amei”, conta. “Eu vim aqui em 2019, mas não curti tanto a cidade, foi muito rápido. E dessa vez eu tive a oportunidade de transitar nas tendas literárias e nos restaurantes e assistir aos shows.”
Mais do que uma agenda de trabalho, a artista encontrou tempo para estar no lugar. “Para mim, foi uma experiência muito boa de estar aqui, de encontrar outros artistas também, de fazer essa troca, que às vezes a gente está em Salvador, mas é super tudo muito rápido.” Em Mucugê, ela encontrou outra possibilidade de convivência. “Aqui a gente teve esse tempo de sentar, de comer, de respirar, de caminhar em um outro tempo.”
Talvez seja justamente esse outro tempo, tão próprio da cidade, que tenha ajudado a prolongar a experiência para além do palco. “Mucugê tem esse lugar de um tempo passado do tempo dele, e isso foi muito bom. Eu quero retornar novamente para essa cidade, tanto para a festa literária quanto para outras agendas e, principalmente, para passear também.”
Entre o ódio que denuncia as feridas e o amor que insiste em construir caminhos, Fyah: Do Ódio ao Amor deixou na Fligê mais do que uma apresentação. Deixou perguntas, memórias e a sensação de que sentimentos considerados difíceis também podem ser matéria de criação. Em Mucugê, onde a artista escolheu dar o primeiro passo de uma trajetória pensada para circular pelo Brasil, a raiva não precisou ser escondida e o amor não precisou ser suavizado. Ambos puderam existir, confrontar-se e, sobretudo, provocar reflexão.
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia
Texto: Samara Dias
Fotos: Igor Noaves






