Autores regionais costuram a história e a fantasia da chapada diamantina na Fligê

Na manhã deste domingo (16), o Palco Tenda Literária reuniu sete escritores para lançar e debater obras que resgatam narrativas de garimpeiros, causos de assombração, vestígios da escravidão e ficções enraizadas na cultura local

A manhã deste domingo (16) no Palco Tenda Literária foi marcada por uma imersão profunda na identidade, na história e no imaginário do povo da Chapada Diamantina. Um encontro autoral reuniu sete escritores e pesquisadores regionais: Tarsiano Dantas Ribeiro, Elizete Almeida, Fred Matt, Raiana Soares, Joaab Rocha, Francielle Gomes Silva e Valdenberg Trindade. Ali, a literatura revelou-se como um verdadeiro mosaico, onde a rigorosa pesquisa histórica se cruza com a tradição oral e a criação artística.

Com um público atento, a roda de conversa destacou como a escrita pode atuar tanto na preservação do patrimônio cultural quanto no resgate de vozes que foram sistematicamente apagadas ao longo do tempo.

A história viva do território emergiu com força no relato de Joaab Rocha, natural de Mucugê, que apresentou a obra Garimpando Memórias. Fruto de um trabalho iniciado nos anos 1990, o livro reúne entrevistas com garimpeiros e garimpeiras, por ele considerados os verdadeiros protagonistas da ocupação da Chapada Diamantina.

“Este livro transcreve histórias de vida de trabalhadores obstinados. Ao longo de quase dois séculos, eles transformaram a geografia local e construíram a cultura garimpeira. Os diamantes que garimpei foram a história de vida dessas pessoas.”

Durante a apresentação, o autor emocionou a plateia ao ler trechos do relato de Noé, um garimpeiro que narra, no dialeto característico do garimpo, encontros misteriosos com visagens na mata e a revelação de pedras valiosas na bateia.

Com um foco documental sobre a formação social da região, o historiador Tarsiano Dantas Ribeiro, de Lençóis, lançou Para Além dos Diamantes: escravidão e liberdade em Santa Isabel do Paraguaçu (1847-1888). Resultante de sua pesquisa de mestrado, a obra analisa cartas de alforria, inventários e processos-crime para deslocar o protagonismo dos coronéis e lançar luz sobre a vida dos escravizados.

“O objetivo principal é trazer a história desse povo que foi marginalizado, resgatando seus fragmentos na documentação do século XIX. Junto com a pujança da exploração diamantífera e da lavoura, existiu um forte comércio de escravizados que construíram as estruturas que hoje conhecemos” 

A interconexão do território também ficou evidente com o lançamento de Narradores de Bonito, de Elizete Almeida. A autora contou que a obra nasceu do desejo de organizar o acervo comunitário e ir além das fotos expostas nas comemorações da cidade.

“Tudo no livro gira em torno do café. Minha família e tantas outras chegaram a Bonito motivadas pelo cultivo da terra. Esse livro é de autoria coletiva, uma necessidade de registrar e honrar a história do nosso povo”.

A tradição oral e o imaginário fantástico ganharam vida nas palavras da professora Raiana Soares, que apresentou Causos das Almas do Sincorá. A obra foi concebida a partir de narrativas contadas por seus alunos em Iramaia, resgatando histórias orais passadas por avós sobre lobisomens, visagens do sertão e a famosa lenda de uma noiva que pede carona nas estradas rurais.

“Quando uma aluna leu a história da avó dela registrada no livro, chorou e me abraçou. A avó tinha falecido recentemente. Percebi que isso vai muito além da literatura: é sobre eternizar afetos e memórias que iriam se perder” 

Completando o painel de diversidade narrativa, a literatura de ficção marcou presença com Fred Matt, que apresentou Contos de Mucugê Jamais Contados no Cabaré do Qual Nunca se Ouviu Falar. A obra reúne 12 contos fictícios nascidos de oficinas de cinema na Chapada e ilustrados com apoio de inteligência artificial, prestando uma homenagem nostálgica às obras ilustradas da infância e às estórias de bastidores inspiradas pelo universo de Jorge Amado.

Ao final do encontro, os participantes destacaram como as obras se complementam, formando uma grande teia sobre a Chapada Diamantina. Seja através dos registros formais do século XIX, dos relatos gravados em fitas ou dos causos passados de geração em geração, a manhã no Palco Tenda Literária reafirmou que escrever sobre a terra é, acima de tudo, um ato de resistência e amor à memória coletiva.

Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021. 

O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.

Repórter: Carol França
Fotógrafo: Thalis Ribeiro

 


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