Roda de conversa reuniu escritores e público para discutir ancestralidade, identidade e novas narrativas na literatura negra contemporânea
Na tarde deste sábado (15), a literatura abriu espaço para outras formas de olhar o mundo durante a Fligê, em Mucugê. Na roda de conversa “Cosmovisões afro-brasileiras na literatura”, escritores e leitores compartilharam experiências, memórias e perspectivas que atravessam a produção literária negra e contribuem para ampliar os imaginários sobre a população afro-brasileira.
Mais do que falar sobre livros, o encontro colocou em cena diferentes maneiras de compreender a existência. As cosmovisões afro-brasileiras partem de perspectivas de mundo construídas a partir das experiências, ancestralidades, memórias e saberes das populações negras. Nelas, a relação entre ser humano, natureza, comunidade, espiritualidade e ancestralidade não aparece de forma fragmentada, mas como parte de uma mesma teia de existência.
Foi nesse território de encontros que os escritores Manoela Ramos, Anderson Shon e Lucas de Matos conduziram o público por diferentes caminhos da literatura contemporânea negra. Para Manoela Ramos, escritora nômade e publicitária, a escrita também nasceu de uma viagem para dentro de si. Autora de Confissões de Viajante (sem grana), obra em que narra experiências vividas em suas viagens pelo país, ela conta que os deslocamentos físicos foram acompanhados por um movimento ainda mais profundo: o encontro consigo mesma.
“Eu estava viajando muito para o meu interior, para esse meu eu, querendo me descobrir, entender o que eu queria fazer da vida. E nessa viagem eu descobri que eu era uma mulher escritora”, relata. A literatura, para Manoela, tornou-se uma ferramenta de autoconhecimento e transformação. “Escrever foi uma forma de me curar e de me descobrir em diversas facetas, inclusive como escritora”, afirma.
Ao falar sobre a participação na roda, a escritora destacou a importância de espaços como a Fligê para que novas vozes circulem e apresentem outras perspectivas sobre a experiência negra na literatura. Para ela, encontros como esse permitem que jovens escritores negros ocupem espaços e façam a literatura chegar a diferentes públicos, também por meio de novas linguagens.
Poeta e quadrinista soteropolitano, Anderson Shon trouxe para a conversa uma literatura marcada pela criação de imaginários positivos a partir da negritude. Autor de dez obras, ele transforma referências da cultura pop, da fantasia, dos quadrinhos e da literatura em ferramentas para construir personagens negros protagonistas de suas próprias histórias.
“Todas elas são atravessadas pela ideia de criar imaginários positivos a partir da raça negra”, explica. Em sua produção, personagens negros ocupam lugares que durante muito tempo lhes foram negados na literatura e no imaginário popular. É o caso de Estados Unidos da África, apresentado pelo autor como uma espécie de “Superman africano”, e de outras obras em que personagens negros estão no centro das narrativas.
“Eu sempre fui um jovem muito nerd e tento fazer com que minha literatura se conecte com esse lugar. Que outros jovens não precisem se reconhecer em rostos que não são os seus”, afirma. Para Shon, a representatividade também está na possibilidade de imaginar diferentes futuros, aventuras e universos com protagonistas negros. “Minha missão é fazer com que as pessoas entendam cada vez mais que representatividade é muito importante”, destaca.
Por isso, sua literatura busca abordar a raça a partir de histórias de bangue-bangue, lobisomens, super-heróis e outras narrativas que, tradicionalmente, tiveram pouca presença de personagens negros. Trata-se de deslocar o negro do lugar de personagem secundário e colocá-lo no centro da aventura, do fantástico, do cotidiano e da imaginação.
Na roda, Lucas de Matos trouxe para o debate a relação entre literatura, formação acadêmica e educação. Comunicador e poeta soteropolitano, atuante na poesia escrita e falada desde 2014, ele integra o grupo de pesquisa FEP, voltado à formação docente e à práxis pedagógica, e atualmente vivencia a graduação e a iniciação científica. “É legal trazer esse lugar de pessoa que está ainda em formação, na graduação, fazendo esse caminho na iniciação científica e fazendo esse diálogo com tanta gente bacana, que já é mestre, ou está fazendo mestrado, já é doutor”, afirma Lucas.
Para o poeta, a presença na Fligê também representa uma oportunidade de aproximar diferentes experiências e etapas da produção de conhecimento, especialmente em um evento que reúne professores, pesquisadores e estudantes de diferentes territórios. “Eu acredito que seja muito legal fazer esse diálogo de igual para igual”, destaca. A experiência ganha ainda mais significado diante da presença de estudantes do ensino médio na feira e da possibilidade de compartilhar com eles discussões que também atravessam a universidade e a formação de professores.
A fala de Lucas se conecta diretamente ao tema desta edição da Fligê, “Múltiplas formas de dizer”. Para ele, a literatura nasce justamente dessa pluralidade de vozes, perspectivas e modos de compreender a realidade. “A literatura tem isso inerente nela, né? São múltiplos autores, múltiplas cosmovisões, portanto, diferentes maneiras de ser, de se expressar, de falar o mesmo tema e de falar diferentes temas”, explica.
É essa multiplicidade que, segundo o poeta, permite ampliar também a maneira como as pessoas leem e interpretam o mundo. “Quanto mais a gente amplia o nosso olhar sobre o mundo, mais leituras a gente pode fomentar”, afirma.
Nesse sentido, Lucas considera fundamental que a Fligê abra espaço para discussões relacionadas à identidade e às diferentes formas de existência. “Trazer um tema desse pra Fligê, falando também de questões ligadas à identidade, é muito importante porque faz com que outras pessoas tenham acesso a essa temática, possam intervir, possam comentar, possam aprender”, destaca.
Ao final, a experiência foi marcada pela troca entre escritores, estudantes, professores e leitores. “A nossa troca foi muito genuína”, resume Lucas, sintetizando o espírito de uma roda em que o conhecimento não se apresentou como algo pronto, mas como construção coletiva a partir da escuta e do encontro.
Entre as pessoas que acompanhavam a conversa estava Nilson Moreira, de 71 anos, aposentado e morador de Salvador. Pela primeira vez em Mucugê e também em uma roda de conversa como aquela, ele conta que chegou sem grandes expectativas. Saiu, porém, profundamente tocado. A viagem de cerca de 500 quilômetros até a Chapada Diamantina já havia proporcionado novas experiências, como conhecer uma cachoeira pela primeira vez. Mas foi na roda de conversa que encontrou uma experiência diferente: a possibilidade de ouvir, refletir e se emocionar.
“Quando as pessoas começaram a falar, eu me emocionei demais, porque vi muitas coisas, muitas verdades. Desnudou o Brasil, desnudou a nossa forma de viver, me trouxe muitos conhecimentos”, conta.
Aos 31 anos, Débora Sousa, psicóloga clínica e da educação, veio de Itacaré para participar pela primeira vez da Fligê. Para ela, a literatura também cumpre um papel fundamental na formação de crianças e adolescentes. “Temos escritores para termos como referência”, afirma. A partir de sua experiência profissional, Débora destaca a importância de oferecer às novas gerações referências diversas, capazes de fortalecer a autoestima e ampliar as possibilidades de identificação.
A roda mostrou, assim, que falar de literatura negra é também falar de memória, identidade e futuro. É reconhecer que uma sociedade se constrói a partir de muitas vozes e que, quando novas vozes entram na narrativa, novos mundos também se tornam possíveis. Entre páginas, personagens, pesquisas e experiências pessoais, a Fligê abriu espaço para uma literatura que não apenas conta histórias, mas também questiona quem tem o direito de contá-las, quem aparece nelas e quais mundos podem ser imaginados.
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.
Texto: Samara Dias
Fotos: Lua Ife Fotografias










