Autora de “Histórias de Mulheres” fala sobre avó, mãe e infância como matéria-prima de seu primeiro livro, lançado pela editora Caramurê
Antes de virar livro, as histórias de Eliana Rodrigues já circulavam em outro formato: um gesto, uma palavra, um jeito de ser guardado na memória. Foi esse material, colhido da própria vida da autora, que deu origem a Histórias de Mulheres, lançado pela editora Caramurê, de Salvador, e apresentado na Tenda Literária da Fligê.
“São narrativas que emanam da minha memória, das pessoas que conheci, dos laços familiares, das figuras com quem convivi e daquelas que observei no cotidiano”, contou Eliana. Segundo ela, um gesto, uma palavra ou uma maneira singular de agir eram estímulo suficiente para dar origem a um conto, e foi o acolhimento em torno dessas histórias, ao reuni-las, que abriu caminho para a publicação.
Questionada sobre de que lugar parte sua narrativa: do próprio olhar ou da observação das trajetórias alheias, a autora foi direta: “o olhar que predomina é o meu, o olhar da criança, da adolescente e, posteriormente, da mulher.” Muitas das histórias, contou, nasceram de figuras que povoaram sua infância, como a avó e a mãe, o que faz do livro, em suas palavras, “a tradução da minha percepção”. Ainda assim, Eliana faz questão de um recuo: não se define como “escritora” no sentido profissional, mas como alguém que se deixa inspirar pelas histórias de vida ao redor.
A conversa também passou pelo lugar da literatura escrita por mulheres em um momento de retrocessos nos direitos femininos. Para Eliana, toda produção realizada por uma mulher na literatura, no cinema, no teatro ou na música é, hoje, um ato de potência. É o caso da avó que aparece em seu livro: “uma mulher de outra geração, que, embora sem instrução formal, possuía uma sabedoria singular”, descreveu a autora, acrescentando acreditar que todas as mulheres carregam essa mesma sabedoria.
Eliana não descarta a capacidade de autores homens transitarem pelo universo feminino. Ela citou João Ubaldo Ribeiro, em A Casa dos Budas Ditosos, como exemplo. Mas defende que uma mulher narrando outras mulheres carrega uma potência particular, fruto da vivência: “ela compreende o mundo a partir da sua própria vivência, com todas as suas particularidades.” Por isso, resume, considera Histórias de Mulheres uma obra profundamente feminina, atravessada por sua própria infância, adolescência e maturidade.
Repórter: Kamile Cardoso
Fotógrafo: Thalis
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