As escritoras Kalypsa Brito, Claudya Costta e Márcia Mendes se reuniram neste sábado para refletir sobre representatividade, autoestima e a construção de um imaginário livre e afroafetivo para as infâncias
Na tarde deste sábado, o palco da Fligêzinha transformou-se em um espaço de afeto, escuta e ancestralidade. As escritoras Kalypsa Brito, Claudya Costta e Márcia Mendes conduziram uma roda de conversa dedicada à literatura infantil afrocentrada e à urgência do protagonismo negro nas páginas dos livros, destacando o impacto profundo dessas narrativas na autoestima, no fortalecimento da identidade e no empoderamento das crianças.
Durante a discussão, as autoras enfatizaram que ver a própria imagem refletida nas histórias permite às crianças negras compreenderem a própria trajetória e se conectarem com suas raízes. O debate lançou luz sobre o direito à fantasia: ao encontrarem princesas, heróis e personagens negros ocupando papéis de destaque, meninas e meninos descobrem que a imaginação é um território sem fronteiras, onde seus corpos, rostos e sonhos têm lugar garantido.
Para a escritora Claudya Costta, construir narrativas afrocentradas é um gesto de resgate do passado e de celebração da diversidade no presente:
“Eu trago nas minhas literaturas personagens sempre protagonistas, donas de si e sabendo para qual caminho vão, recuperando esse passado perdido, porque antigamente não tínhamos essa representatividade. É importante para que as crianças negras se vejam, se reconheçam, e para que outras crianças também possam ver e saber a importância da diversidade.”
Ao problematizar os desafios da publicação independente, Kalypsa Brito destacou a urgência de disputar o imaginário infantil em um mercado editorial que ainda permanece predominantemente concentrado e pouco diverso:
“A gente precisa escutar e disputar o imaginário infantil no sentido de desconstruir quem é a personagem principal e qual narrativa é válida. Nós partimos para essa construção com uma coragem na sacola e um pouco de ‘óleo de dendê’, porque às vezes a gente tem que ir abrindo caminhos para que nossas vozes cheguem até as escolas.”
Defendendo a literatura como um espaço sagrado de liberdade, Márcia Mendes detalhou o cuidado em trabalhar a representatividade a partir de uma perspectiva “negra afetiva”, contemplando a pluralidade das características físicas e promovendo o respeito desde a infância:
“A literatura é um território fértil e de liberdade. Nos meus livros, faço questão de colocar diferentes tons de pele — mais de cem tons —, diferentes texturas de cabelos e lábios, para que as crianças se reconheçam de forma positiva. A criança precisa gostar do que vê, sentir orgulho do próprio cabelo e da sua cor de pele. A palavra e a ilustração têm força de signo, e essa representatividade bonita contribui para um mundo sem preconceito e discriminação.”
O bate-papo na Fligêzinha reafirmou que democratizar o acesso a histórias diversas é plantar sementes de afeto e respeito. Ao garantir que o protagonismo negro habite as páginas da literatura infantil, o encontro renovou a certeza de que toda criança tem o direito de se ver, de se orgulhar de quem é e de voar longe nas asas da imaginação.
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.
Repórter: Carol França
Fotógrafo: Thalis Ribeiro




