Entre a leitura e a análise: os fios que tecem Torto Arado na Fligê

Professor Ale Pinto conduziu leitura e análise de “Torto Arado” na Fligê, revelando os diálogos do romance de Itamar Vieira Junior com autores como Érico Veríssimo e Raduan Nassar

Há livros que são lidos em silêncio e livros que pedem para ser ouvidos em voz alta. Torto Arado é dos dois tipos. Foi assim que a Fligê recebeu, na Tenda Literária, uma atividade dedicada ao romance de Itamar Vieira Junior, conduzida pelo professor Ale Pinto, que reuniu a leitura de um trecho do livro e a análise das referências literárias que atravessam a obra.

Antes de iniciar a leitura, Pinto explicou à plateia que o trecho escolhido era narrado por Bibiana, uma das protagonistas do romance, ao relembrar um episódio da infância ao lado da irmã Belonísia. Em seguida, leu a passagem em que as duas irmãs, ainda crianças, brincam de bonecas feitas de espiga de milho no quintal da casa antiga e aproveitam a distração da avó Donana para investigar o conteúdo de uma mala de couro escondida debaixo da cama, o mesmo objeto que, mais adiante no romance, revela a faca responsável por silenciar Belonísia para sempre.

Encerrada a leitura, o professor passou à análise. “No que concerne à análise de Torto Arado, é notável o diálogo constante que o autor estabelece com a tradição literária brasileira”, afirmou Pinto, lembrando que o próprio título do livro remete a um verso de Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, e evoca a terra e a finitude que sustentam a narrativa. Sobre a relação da obra com O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, o professor destacou: “a escolha do nome ‘Bibiana’ para a protagonista não é fortuita; trata-se de um recurso intertextual que reativa a memória da Bibiana Terra, de Veríssimo, subvertendo ou ressignificando essa figura em um contexto novo e singular”.

O professor ainda aproximou Torto Arado de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. “Enquanto Nassar retrata uma família de classe média em processo de desintegração, na qual a terra, o trabalho e a mesa compõem um ciclo de sermões paternos, Itamar Vieira foca em uma micro-história do interior da Chapada Diamantina”, explicou Pinto, ressaltando que o autor dá voz a personagens historicamente marginalizados na literatura brasileira, que vivem na terra, mas não possuem a posse dela.

Por fim, Pinto tratou da estrutura polifônica do romance, distinguindo-a do dialogismo abordado anteriormente: “enquanto este último refere-se à interação entre diferentes obras e tradições, a polifonia em Torto Arado manifesta-se através das vozes narrativas de Bibiana, Belonísia e Maria Cabocla”. Para o professor, essa escolha narrativa reforça o papel da memória feminina na preservação da identidade de um povo.

Repórter: Kamile Cardoso 

Fotógrafo: Lua Ife

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