Memória e silêncio: Mariana Salomão Carrara e Moema Franca dialogam na Fligê 

Mediada por Lílian Almeida, a refletiu sobre a escrita amadora, a passagem do tempo e os vazios comunicativos que constroem a literatura. 

Sob a premissa de que nem tudo precisa ser dito em voz alta para permanecer vivo, a Mesa intitulada “Memória e silêncio das coisas”, promoveu uma profunda reflexão sobre o fazer literário e as ausências que constroem a narrativa. A mediação esteve a cargo da escritora, professora da UNEB e terapeuta Lílian Almeida, que conduziu a conversa com as autoras Mariana Salomão Carrara (Se Deus me chamar não vou) e Moema Franca (Anatomia de uma cidade).

Para abrir o bate papo, Lílian Almeida resgatou uma famosa entrevista de Clarice Lispector, na qual a autora afirmava se manter uma “escritora amadora” como forma de garantir sua liberdade criativa, livre de obrigações institucionais.

Ao refletirem sobre essa postura, ambas as convidadas concordaram que se afastar da lógica estritamente utilitária do mercado protege a porosidade da escrita. Moema Franca relembrou sua trajetória por diversas áreas, da análise de sistemas ao jornalismo e ao cinema, até render-se à literatura, destacando o pavor de instrumentalizar a própria vida:

“Eu tinha um temor muito grande de chegar a um momento em que meu olhar fosse excessivamente utilitário, de viver já pensando ‘isso dá uma crônica, isso não dá’. Eu não queria ter esse olhar instrumental para a vida. A literatura não é minha primeira profissão, e ser amadora nesse sentido é preservar esse olhar que não busca só o uso prático.” 

Provocadas sobre como capturam a matéria-prima de suas obras, as autoras revelaram que o processo criativo opera por estalos, observação minuciosa e pelo que Moema definiu como a busca incessante da espécie humana por significados. Mariana explicou como a mente do escritor se volta inteiramente para a obra quando um livro ganha vida:

“Quando há um romance em andamento, ele suga tudo. Qualquer coisa que você vê gera aquele ‘clique’ interno que parece dizer: ‘isso é literário, isso se amolda ao romance’. Quando não há nada em andamento, a gente apenas recebe a vida de uma forma não literária, até surgir a próxima faísca.” 

Aprofundando o tema central do encontro, Lílian provocou as debatedoras sobre como o silêncio habita suas obras, seja pelo luto, pelo ocultamento ou pela fala dos próprios objetos domésticos.

Mariana Salomão Carrara destacou o silêncio interno dos narradores em primeira pessoa e a memória impregnada no cotidiano:

“Gosto muito de especular o que as pessoas estão pensando e não estão falando, porque muito do que agimos na vida tem a ver com o que não soubemos expressar. Meus narradores muitas vezes estão em um monólogo interior profundo, calados para o mundo ao redor. E há também a memória dos objetos: a vida e os gestos da família que ficam guardados em um espelho ou no ato de separar grãos de bico.” 

Moema Franca trouxe uma perspectiva sobre o silêncio enquanto habilidade política e recurso estético, lembrando a inefabilidade da comunicação humana:

“O silêncio é uma habilidade, esse ‘dizer sem dizer’. Os silêncios muitas vezes se comunicam mais do que aquilo que é dito. Embora a linguagem seja a coisa mais preciosa que temos, ela é imperfeita: da minha pele para dentro da de vocês, a gente nunca vai saber se a comunicação se deu perfeitamente. O silêncio trabalha nesse espaço.” 

A mesa deixou evidente que escrever é também um exercício de constante escuta do invisível. Em um mundo saturado de ruídos e urgências, Mariana Salomão Carrara, Moema Franca e Lílian Almeida reafirmaram que a literatura não se apressa. Afinal, ao dar contorno aos vazios que nos atravessam e acolher a inefabilidade da linguagem, a palavra dita e a palavra calada cumprem o mesmo papel fundamental: resgatar a memória do cotidiano e impedir que a sensibilidade das coisas caia no esquecimento. 

Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021. 

O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.

Repórter: Carol França
Fotógrafo: Thiago Gama


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