Letra e Som: Itamar Vieira Júnior e Chico César celebram a palavra em encontro na Fligê

Diante de leitores, estudantes e amantes da música, artistas compartilharam histórias e refletiram sobre literatura, criação e memória

Após lotar a Praça dos Garimpeiros para um show histórico na Fligê 2026, o cantor Chico César retornou ao palco na manhã desta sexta-feira (14), dessa vez para uma conversa literária com o autor Itamar Vieira Júnior. O encontro foi marcado por histórias, causos engraçados, risadas e reflexões acerca da literatura, da música e dos processos criativos de ambos. A praça, agora à luz do dia, recebeu leitores, amantes da música popular brasileira, estudantes e professores, todos unidos pela paixão pela literatura e pela arte.

A mediação ficou por conta de Elton Becker, que começou a conversa falando sobre as mulheres, inspirações recorrentes para as obras de Chico e Itamar, e mencionou o sucesso “Mulher eu sei”, do cantor, que discute questões de gênero e provoca reflexões acerca da compreensão das mulheres. Para Chico, a música tem a capacidade de lançar luzes difusas sobre temas que precisam ser discutidos. “Fiz a música para os homens cantarem porque, quando eles cantam, eles acessam um lugar feminino que é necessário”, contou.

Além disso, o cantor também contou que foi criado por sua mãe e sua tia mais velha. Ao ler “Torto Arado”, o cantor disse ter reconhecido na história das irmãs Bibiana e Belonisia as mulheres que, juntas, cuidaram da família. “Essas mulheres salvaram a gente de um destino que parecia traçado”, afirmou Chico ao reconhecer a importância do cuidado desempenhado por elas ao proporcionarem caminhos diferentes para ele por meio do cuidado.

Itamar Vieira Júnior, por sua vez, também falou da presença de mulheres em sua trajetória e na construção de sua obra. Ao lembrar da infância, definiu a casa em que viveu como uma “casa de muitas mulheres”. Segundo o escritor, o olhar preocupado delas para a educação transformou seu imaginário acerca da participação das mulheres nas relações familiares, que mais tarde viria a aparecer em sua literatura. Para Itamar, as histórias de suas obras também são uma maneira de homenagear essas mulheres.

Chico, mais uma vez, contou histórias que arrancaram muitas risadas e aplausos do público, mas sempre promovendo uma reflexão importante sobre questões sociais que também estão presentes na obra de Itamar. Em diferentes momentos, o cantor revelou como se enxergou nas páginas dos livros do autor. O encontro expressou uma troca de afagos em nome da literatura e da música, da letra e do som, que se complementam na construção de histórias e na forma de dar sentido à existência.

O cantor também falou sobre seu processo criativo, que considera caótico. Segundo ele, costuma compor em movimento. Foi assim que aconteceu com “Mama África”, que Chico fez enquanto ia buscar a irmã no aeroporto em São Paulo e observou mulheres que precisavam acordar cedo para trabalhar. “Processos que parecem levar a lugar algum são importantes porque são como fios desencapados que conduzem uma corrente elétrica de energia importante que vão resultar em alguma coisa importante”, refletiu Chico.

Já Itamar falou sobre a necessidade humana de criar linguagens para contar histórias. “Nós desenvolvemos a linguagem pela necessidade de contar histórias que dão sentido à vida”, afirmou. O escritor também contou que os artistas da música foram importantes para que ele começasse a dar atenção à palavra, já que sua casa não era uma casa de pessoas leitoras.

Essa relação entre música e literatura foi lembrada em diversos momentos durante o encontro. Para Itamar, as duas linguagens possuem uma relação muito antiga, lembrando as trovas. De acordo com ele, a sonoridade das palavras é fundamental para a literatura. “Para mim, uma frase não deve ser qualquer frase, ela deve reverberar algo de diferente no leitor. Ela tem que ter sonoridade. A literatura bebe muito dessa fonte”, disse.

Chico César destacou ainda a importância de aproximar a literatura das pessoas, destacando a atuação das feiras e dos encontros promovidos por elas nessa empreitada. “A literatura precisa se tornar atraente sem perder sua essência, e esse aqui é um caminho. Fico feliz de ver tanta gente reunida em torno de uma causa tão especial”, afirmou o cantor. Em outro momento, Chico resumiu a força que atribui aos livros. “Os livros nos salvam”, disse, arrancando aplausos e gritos sinceros da plateia.

Ainda sobre as feiras, Itamar destacou a relação que construiu com esses eventos, lembrando que a Feira Literária de Mucugê foi uma das primeiras em que ele esteve após o lançamento de “Torto Arado”. “Eu tenho participado de muitas feiras literárias e me sinto em casa, pois estamos aqui falando das coisas que amamos. Na última década, as feiras cresceram muito e, junto com elas, o interesse pela literatura. É um evento que celebra o livro, o autor e os leitores. Não existe um sem o outro”, disse.

Ao final da conversa, Chico César voltou a unir música e literatura. O cantor encerrou o encontro cantando junto ao público a canção “Fofo”, que dá nome ao álbum que lançou em 2026. Chico escreveu a música com base em um trecho do livro “Americanah”, da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. O encontro entre letra e som foi um exemplo de como a literatura abrange diversas linguagens e, mais uma vez, reafirmou o tema da nona edição da Feira Literária de Mucugê ao proporcionar, em tempo real, a materialização das múltiplas formas do dizer.

Repórter: Pedro Novaes

Fotógrafo: Thiago Gama 

Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021. 

 O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.




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