Na noite desta sexta-feira (15), o Encontro Autoral apresentou o pré-lançamento da 15ª obra do Diálogos Insubmissos e revelou ao público a estreia da poeta Eva Doce
A noite de sexta-feira (15) na Fligê teve o peso e a beleza de um gesto histórico. No palco montado para o Encontro Autoral, a edição Autoras Negras Baianas do Slam Insubmisso reuniu escritoras, pesquisadoras e uma plateia majoritariamente jovem para testemunhar algo que, até poucas décadas atrás, praticamente não existia nos palcos das feiras literárias brasileiras: mulheres negras falando sobre sua própria literatura, com autoridade e sem pedir licença.
O encontro marcou também o pré-lançamento da 15ª obra do Instituto Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras (DIMN), que será lançada oficialmente em Salvador nas próximas semanas, e apresentou ao público da Fligê a estreia de uma nova voz da poesia baiana, a cantora, atriz, modelo e escritora Eva Doce.
Fundado em 2017 por Dayse Sacramento, o projeto Diálogos Insubmissos nasceu de uma constatação incômoda: a ausência recorrente de autoras negras na programação das grandes festas literárias do país. Mais do que uma constatação, tornou-se um movimento coletivo de cobrança e de construção de lugares próprios de fala.
“O Diálogos Insubmissos, desde 2017, reconhece uma ausência, uma rasura da presença de autoras negras em festas literárias”, contou Dayse. “Isso vem mudando no decorrer dos anos, e isso é fruto de uma queixa coletiva. Eu digo queixa no lugar mesmo da cobrança, da reclamação, do questionamento das curadorias das festas literárias sobre essa presença da produção intelectual de mulheres negras”, completou.
Ao longo de uma década, o trabalho da organização se voltou a fomentar e produzir lugares de fala para escritoras que, muitas vezes, participavam pela primeira vez de um evento literário como autoras publicadas. Para Dayse, cada uma dessas estreias carrega um significado que ultrapassa o individual.
“Quando a gente está num evento literário com uma jovem que nunca participou de uma festa literária e que está vindo pela primeira vez como autora, a gente reverte muita coisa que historicamente o racismo apagou da presença de pessoas pretas na vida editorial do país”, afirmou. “As mulheres negras são o maior percentual populacional do país, somos 27,5%. Então não tem festa literária que se justifique com a ausência das autoras.”
O Instituto Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras, sediado em Salvador, atua na valorização, circulação e publicação da produção intelectual de mulheres negras, com foco nos debates raciais protagonizados por suas contribuições, pesquisas e ativismos. A organização também se dedica à edição de livros como forma de fortalecer os registros da memória negra na diáspora africana e realiza eventos autogestionados que dialogam com outras linguagens artísticas, além de participar de feiras literárias nacionais e internacionais.
O pré-lançamento apresentado na Fligê integra uma trajetória editorial que começou em novembro de 2021, com a publicação de “Insubmissão Intelectual de Mulheres Negras Nordestinas”, uma antologia reunindo textos de autoras de cada estado do Nordeste, traduzida também para o espanhol.
Desde então, o projeto chegou à sua 15ª obra, a maior parte delas produzida em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo e disponibilizada gratuitamente em versão digital. Já impressas, entre edições em parceria e produções próprias, o Diálogos Insubmissos soma quase oito mil livros distribuídos, quase sempre sem qualquer aporte do poder público.
“A gente de alguma forma faz uma política de promoção da leitura, de difusão do trabalho intelectual de mulheres negras sem o amparo do Estado”, explicou Dayse Sacramento, destacando que a distribuição gratuita é sustentada principalmente pelos projetos apoiados pela Fundação Rosa Luxemburgo. Para a idealizadora do projeto, a qualidade estética das publicações é um compromisso tão importante quanto o conteúdo. “São livros feitos com preocupação estética também, que é muito importante para nós, pessoas pretas que estamos fazendo a publicação. A gente sabe que é muito caro fazer livro, então a gente tem a possibilidade de fazer os livros com essa qualidade, e a qualidade estética eu digo também sobre o conforto da leitura.”
Entre as vozes apresentadas na noite de estreia estava Eva Doce, nome artístico de Diana Ramos, cantora, atriz, modelo e escritora de 23 anos, uma das autoras da 15ª obra do Diálogos Insubmissos, que esteve no pré-lançamento do livro na Fligê e viu, ali, um sonho antigo se materializar pela primeira vez.
Para Eva, a escrita nasceu como um processo de cura antes de se tornar literatura publicada. “Quando eu iniciei a escrever, a poesia se tornou uma tecnologia de cura”, contou. “Encontrar o coletivo Slam Insubmisso foi muito importante porque eles dão uma matéria, um local, para as poesias, que são os livros, que eu nunca imaginei que eu poderia escrever e estar em livros como poeta. Era um sonho um pouco distante, mas eu percebi que ele estava muito mais perto de mim do que eu imaginava”, explicou.
Mais do que a realização pessoal, a jovem poeta enxerga no livro um instrumento de memória e de legado. “Isso é muito importante porque outras pessoas podem ver esse livro, como eu penso, como eu vejo o mundo. Meus próximos descendentes que vão vir depois de mim vão poder entender quem é Eva Doce.” Na Fligê, ela viveu também sua primeira experiência diante do público de uma feira literária, participando do pré-lançamento que introduziu sua obra ao circuito editorial baiano.
Entre o público que acompanhou o encontro estava a professora Maria do Socorro Aquino, que já havia participado de outras edições da Fligê, mas destacou o ineditismo de assistir a uma mesa inteiramente dedicada à literatura de autoras negras. “Esse tipo de mesa é muito recente na história da literatura brasileira. Há até 30 anos ninguém nem falava em escritoras negras. E estarmos em uma feira ouvindo mulheres negras falando sobre essa literatura é um avanço muito grande, principalmente para um público jovem”, avaliou.
A escritora Anny Argola também acompanhou a conversa de olhos emocionados e ouvidos atentos. Ela reforçou a importância simbólica de ver a Fligê abrigar um encontro como esse. Curadora da Feira Literária de Entre Rios, a escritora avaliou que o evento cumpre um papel de inspiração para outras iniciativas do gênero pelo interior baiano. “A Fligê é um palco para a gente que precisa se inspirar também em feiras literárias. E ver na Fligê realmente uma mesa de mulheres negras é se sentir representada”, disse. “A gente sabe perfeitamente que por muito tempo essas vozes foram caladas, discriminadas, e hoje a Fligê abre portas para isso. Então a gente se sente grata e representada também.”
Ao reunir uma trajetória de dez anos de resistência editorial, o pré-lançamento de uma 15ª obra e a estreia de uma nova voz poética, o Slam Insubmisso, na edição Autoras Negras Baianas, condensou na Fligê 2026 um pouco da história recente da literatura negra brasileira e do longo caminho que ainda resta para que essas vozes deixem de ser exceção nos palcos literários do país. Entre aplausos, poesia recitada e relatos de superação, a noite confirmou que, para além da estreia de Eva Doce, o que se lançou ali foi a continuidade de um movimento que já não pede espaço: ele o ocupa.
Texto: Samara Dias
Foto: Thalis Ribeiro
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.






