Em encontro autoral na Tenda Literária, autor de “Apenas um Cidadão” fala sobre racismo estrutural, o caso Pelé e nomes de traficantes de escravos que ainda batizam ruas e museus de Salvador
Há cidades que erguem estátuas para o que querem lembrar e apagam com a mesma delicadeza o que preferem esquecer. Foi sobre essa arquitetura invisível do esquecimento que o escritor Zulu Araújo, autor de “Apenas um Cidadão”, falou durante encontro autoral no palco da Tenda Literária, na Fligê. Citando o estudioso congolês Kabengele Munanga, foi direto “o Brasil, e eu digo que a Bahia, conseguiu cometer o crime perfeito”.
Para ilustrar o racismo estrutural, citou um episódio em que o jornalista Juca Kfouri foi questionado três vezes seguidas, porque Pelé nunca foi endeusado no Brasil como Messi e Maradona são na Argentina. A resposta, segundo Zulu, foi sempre a mesma “porque ele é preto”. “O racismo brasileiro consegue negar a existência do maior jogador de futebol de todos os tempos”, disse.
Zulu contou que começou a escrever a convite do jornalista Dacar Miranda, no extinto jornal Bahia Hoje. Seu primeiro texto foi sobre cidadania. “Achava um absurdo a forma como eram tratados os bairros populares na cidade de Salvador, aliás, não era, continua sendo”, apontou. “Criança num bairro popular negro é pivete, uma criança na classe média é criança. Um adolescente na classe média é um jovem que precisa de orientação; um adolescente num bairro popular é aquele que está na mira do fuzil”, emendou Zulu, ressaltanda diferença de tratamento das pessoas de acordo com o lugar onde vivem.
O autor nasceu no Solar do Unhão, hoje sede do Museu de Arte Moderna (MAM) da Bahia, museu que, projetado por Lina Bo Bardi, deveria se chamar Museu de Arte Popular. “A elite na cidade de Salvador não permitiu”, disse Zulu, acrescentando que Lina Bo Bardi acabou deixando a cidade rumo a São Paulo, onde fundou o MAM paulista.
Antes de virar museu, porém, o Solar do Unhão foi “o espaço de compra e venda de escravizados”, pertencente a Gabriel Soares, que Zulu descreveu como “um dos maiores traficantes de escravos da América Latina”, e que hoje batiza uma rua de Salvador. “A Bahia homenageia os traficantes de escravos com um orgulho que você não encontra em nenhum outro lugar do mundo”, afirmou o escritor, citando também o Comendador Pereira Marinho, a família Catarino e o Museu Carlos Costa Pinto.
Ainda assim, segundo Zulu, essas mesmas famílias desaparecem no momento em que a história precisa nomeá-las como o que foram. “Não tem mais ninguém no arquivo público do Estado da Bahia, nem em nenhum livro de história na Bahia, nenhuma família baiana como traficante de escravos”. É esse contraste, entre a homenagem em pedra e o silêncio no papel, que o escritor resume numa única expressão “apagamento histórico”. Uma ausência tão bem construída, disse, que precisou atravessar o Atlântico, até os arquivos de Portugal, para encontrar o que a própria Bahia escolheu não registrar.
Repórter: Kamile Cardoso
Fotógrafo: Lua Ife
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.




