Com mediação de Deco Lipe, os escritores Márcio Benjamin e Franklin Carvalho encheram a plateia da Tenda Literária para mostrar como o medo se transformou com a tecnologia e por que o horror é ferramenta de preservação e celebração do diferente
O que nos dá medo em um mundo onde quase não existe mais a escuridão total? Foi assim que os escritores Márcio Benjamin e Franklin Carvalho, sob mediação do ator, escritor e criador de conteúdo literário Deco Lipe, conduziram a roda de conversa “Horror e Terror na Literatura” no palco da Tenda Literária, na tarde desta sexta-feira. O bate-papo debateu as perspectivas e os modos de produção de literatura fantástica, principalmente sobre o Nordeste, além de afirmá-la como um ato de resistência e pertencimento.
Ao abrir o debate, Márcio Benjamin, que se definiu de forma muito bem-humorada como “filho de Freddy Krueger com a mula sem cabeça”, destacou como o horror opera de maneira visceral no leitor, provocando reações físicas imediatas e acolhendo quem muitas vezes é ignorado pela sociedade. “E quando pessoa gay, quando pessoa queer, o terror não apenas tolera: ele celebra as diferenças de cada um. O terror pega uma coisa que para as pessoas usuais seria vista de outra forma e a celebra. Essa celebração do diferente, do fora do comum, é o que tanto me atrai”, afirmou Márcio.
Trazendo o contraste histórico sobre a geografia do medo, Franklin Carvalho relembrou suas vivências no interior do estado, onde o folclore e os “causos” nasciam justamente da falta de iluminação e do isolamento rural. Para ele, a tecnologia (principalmente o celular) mudou a relação das novas gerações com o medo e sobrenatural. “Antigamente a cidade era mais assombrada porque tinha muito menos luz elétrica. Não havia celular à noite. Hoje é muito difícil obter um escuro total. Onde você vá, você tem um celular que acende. A gente perdeu um pouco da referência do que era o medo rural, do saci, da caipora, e os mediadores culturais agora precisam descobrir quais serão os novos medos dessa infância eletrônica”, pontuou Franklin.
Outro ponto da mesa foi a reflexão de Márcio Benjamin sobre a função política de se escrever fantasia e horror no Nordeste. Para o autor, fantasiar sobre a própria terra é uma forma de protegê-la contra o apagamento e estigmas que limitam a região a cenários de seca e miséria.
“Quando a gente encanta as coisas, elas ganham uma importância ainda maior […] Escrever literatura fantástica aqui é uma forma de firmar a nossa existência e reinventar o nosso lugar”, defendeu o escritor.
Ao responder às perguntas de Deco Lipe, os autores concordaram que o terror exige técnica, leitura constante e a coragem de lidar com as próprias dúvidas e obscuridades. Como resumiu Márcio: “A claridade é maravilhosa num dia como este, mas a gente também precisa saber lidar com o escuro.”
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.
Repórter: Carol França
Fotógrafo: Igor Chaves




