Em conferência marcada por silêncios, memória e ancestralidade, poeta e Yalorixá emocionou o público de Mucugê na noite de abertura da Fligê
Entre palavras, silêncios e memórias, a literatura encontrou morada na noite de abertura da Fligê, em Mucugê, nesta quinta-feira (13). A conferência “Literatura é quando dizer cura”, conduzida pela poeta, pesquisadora, professora e Yalorixá Lívia Natália, transformou o encontro em uma experiência de escuta e emoção. Diante de um público atento, Lívia falou sobre escrita, literatura negra, maternidade, ancestralidade e o poder de transformar aquilo que durante muito tempo permaneceu em silêncio em palavra.
Filha de Ogum, Lívia Natália levou para a conferência não apenas reflexões sobre o fazer literário, mas também a própria poesia. Ao longo do encontro, recitou poemas publicados em seus livros e presenteou o público com dois textos inéditos, que estarão em sua próxima obra — ainda sem título revelado, por acordo com a editora.
Foi na voz da poeta que a literatura ganhou corpo. Os poemas atravessaram o espaço da conferência e encontraram quem estava diante dela. Em meio à escuta, vieram a emoção, o silêncio e a sensação de reconhecimento. Ao falar sobre o momento em que a palavra deixa de ser apenas expressão e passa a ser também uma forma de cura, Lívia foi direta: “Eu acho que a gente se sente tocado pela poesia, pela literatura, quando ela nos devolve algo que a gente ainda não tinha conseguido dizer”, disse.
Para ela, esse encontro ganha uma dimensão ainda mais profunda quando a literatura permite que pessoas negras encontrem, na palavra, uma imagem de si mesmas. “Eu acho que a literatura negra tem esse poder, né? A gente se olha no olho, se entende, se cura, se refaz”, afirmou.
A escritora também refletiu sobre o lugar das pessoas negras dentro de uma tradição literária marcada pela branquitude. Segundo Lívia, muitas vezes esse acolhimento é provisório, atravessado por racismo e misoginia. É justamente por isso que encontrar uma literatura capaz de reconhecer essas experiências pode produzir um outro tipo de pertencimento.
A presença de Lívia também reverberou entre os participantes da conferência. Para a professora Karina Cerqueira, ouvi-la é uma experiência que ultrapassa a dimensão intelectual. “Ouvir Lívia é sempre um presente. Toda vez que eu ouço Lívia, a gente sai com o âmago, com a alma preenchida de tanta sensibilidade, e a Fligê proporciona que a gente ouça ela num lugar tão acolhedor quanto Mucugê”, contou.
Karina descreveu ainda a presença da escritora como algo quase sagrado e não escondeu a emoção. “Para mim é uma experiência inenarrável ouvir Lívia e ver Lívia, quase como se vê um orixá presente entre a gente, conversando com a gente. Muita emoção! A gente fica meio embargada de ouvi-la, de vê-la falar, da forma tão bonita como ela fala da própria vida. Para mim é lindo”, relatou.
Entre o público estava também uma estudante do curso de Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), que saiu de Ilhéus especialmente para participar da Fligê. A aproximação com a obra de Lívia começou na universidade, por indicação de uma professora. Desde então, a estudante passou a acompanhar a produção da escritora e, naquela noite, teve a oportunidade de encontrá-la presencialmente.
A experiência, para ela, representou também uma transformação na própria relação com a poesia. “Nossa, foi muito emocionante, porque eu era uma pessoa que não gostava de poesia até conhecê-la. Eu não lia muita poesia, e aí, a partir de Lívia, comecei a perceber a poesia como algo presente em nós mesmos, no nosso dia a dia”, revelou.
A trajetória de Lívia Natália é marcada pela poesia, pela pesquisa e pela docência. Doutora em Literatura pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde é professora de Teoria Literária, a escritora já publicou Água Negra (Caramurê, 2010), vencedor do Prêmio Banco Capital de Poesia; Correntezas e Outros Estudos Marinhos (Ogum’s Toques, 2015); e Água Negra e Outras Águas (Caramurê, 2016).
Em 2017, recebeu o prêmio de Melhor Livro de Poesia no Prêmio APCA por Dia Bonito pra Chover, publicado pela Editora Malê. A obra reúne 30 poemas que abordam a temática universal do amor a partir do olhar de uma mulher negra. Na Fligê, a escritora também falou sobre o livro que está preparando. O título ainda não pode ser revelado, mas duas das poesias que estarão na nova obra foram compartilhadas com o público. Lívia contou que o livro nasceu “à beira-leito”, em torno da mãe que estava internada em um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), e que essa escrita se tornou uma forma de elaborar amor, memória e ancestralidade. “Mas é um livro que, como qualquer escrevência de mulheres negras, é sobre mim e sobre nós todas”, destacou.
A obra também retoma uma questão que atravessa sua trajetória literária: o lugar da mãe preta na literatura e na memória brasileira. “A mãe preta não foi colocada na nossa literatura. Ela foi colocada como produto, como fábrica, útero sequestrado, rendido. Então eu poder falar a partir desse lugar, do lugar de filha de uma mulher preta, é muito importante”, afirmou.
Ao falar da mãe, Lívia desloca a experiência individual para uma dimensão coletiva. A memória de uma mulher torna-se também memória de tantas outras. A ferida particular encontra, na poesia, uma possibilidade de nomeação. “Então esse livro é muito isso. É um livro que tem, como sempre, questão política, porque não tem como sair disso”, pontuou.
A conferência também revelou uma das dimensões mais fortes da relação de Lívia com o público: a possibilidade de a literatura chegar onde, muitas vezes, ninguém esperava que chegasse. A escritora contou que tem percorrido a Bahia e outros lugares do país, participando de festas, feiras e encontros literários. Nessas viagens, são os leitores que, segundo ela, confirmam o alcance da poesia. “Eu sinto o poder que a poesia tem, o poder que a palavra tem. E sinto isso justamente quando uma pessoa me abraça e diz: ‘Olha, me emocionei com o que você disse, o que você trouxe é importante'”, contou.
Lívia também destacou a presença dos jovens que escrevem, mas ainda não acreditam que seja possível fazer da arte um caminho. “Tem muito jovem, menino, menina, que escreve e que não acha que é possível. Eu acho que sou uma pessoa que mostra o que é possível, e que é importante que a gente continue fazendo arte, resistindo. Porque é aí que a arte faz sentido”, disse.
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.
Texto: Samara Dias
Fotos: Igor Chaves










