Reisado da Barriguda leva à Fligê os cantos de uma memória que atravessa gerações

Na mostra de Reisados, comunidade quilombola transforma tradição, ancestralidade e resistência em encontro com o público da Feira Literária de Mucugê

O pandeiro marcou o tempo, o violão costurou a melodia e o grupo de vozes entoou versos que atravessaram mais de sessenta anos até chegar à Praça da Lanterna. Foi assim que o Reisado da comunidade quilombola da Barriguda voltou a se apresentar na Feira Literária de Mucugê (Fligê), trazendo consigo uma história de resistência, fé e memória.

A apresentação reuniu moradores de diferentes gerações, das mais antigas às mais jovens, em torno de um repertório que a comunidade preserva desde a década de 1960. Entre um verso e outro, o público que compareceu a praça acompanhou não apenas uma performance, mas um pedaço da história da Barriguda, quilombo localizado a 55 quilômetros de Mucugê, na divisa com Palmeiras, reconhecido pela Fundação Palmares desde 2011 e formado por 74 famílias reunidas em torno da Associação Comunitária de Barriguda. Foi desse território, marcado por histórias familiares e tradições transmitidas oralmente, que o Reisado chegou à Fligê para ser apresentado não apenas como uma expressão cultural, mas como parte viva da identidade de seus moradores.

Para Maria Flaziana da Silva, 62 anos, nascida e criada em Barriguda e participante do Reisado desde a infância, estar na Fligê é uma oportunidade de compartilhar essa história com novos públicos. “É muito bom participar do Reisado, ser uma pessoa da comunidade quilombola de Barriguda e participar do Reisado. Assim como os meus antepassados, quero continuar a nossa tradição e deixar para os jovens. A nova geração vai continuar”, disse.

A apresentação também representa, para os moradores, uma forma de fazer com que uma tradição que nasceu no cotidiano da comunidade alcance outros lugares sem perder suas raízes. Maria define o Reisado como um momento de encontro e alegria: “O Reisado é muito bom. É um momento de alegria. Todos gostam de participar”, contou com um sorriso no rosto.

A relação entre a manifestação e a memória familiar aparece com força na história do mestre griô Cândido Pereira de Sousa. Filho de um reiseiro, ele aprendeu os cantos acompanhando o pai, que havia aprendido a tradição no Pati. Segundo Cândido, seu pai levou o Reisado para Barriguda quando se mudou para a comunidade, em 1964, retomando uma prática que já existia no local, mas que havia perdido força com a morte ou a mudança de antigos integrantes.

“Meu pai era reiseiro, agora eu não sou reiseiro não”, conta Cândido. Apesar de não se definir como reiseiro, foi acompanhando o pai que ele aprendeu os cantos e passou a participar das jornadas. Durante anos, os grupos percorriam casas e comunidades, cantando entre os primeiros dias de janeiro e o Dia de Reis, em 6 de janeiro. As visitas também ajudavam a arrecadar recursos para a realização da festa.

A memória dessas jornadas ainda está presente na comunidade. Cândido conta que o pai chegava a passar vários dias fora de casa, percorrendo diferentes lugares com o grupo. O Reisado, assim, não se restringia a uma apresentação: era uma prática de convivência, circulação e celebração, que aproximava moradores e fortalecia os vínculos comunitários.

É justamente essa memória que o grupo apresentou na Fligê. Ao ocupar o espaço da Feira, o Reisado da Barriguda transforma a tradição em encontro com o público e reafirma a importância de preservar manifestações que fazem parte da história cultural do território. Para Cândido, entretanto, manter essa tradição viva é um desafio. O mestre observa que a participação dos jovens tem diminuído e teme que o Reisado siga o caminho de outras manifestações que perderam espaço na comunidade. “O difícil é que a juventude não liga muito. A gente canta e tudo, e faz alguma apresentação, mas muitos jovens não querem aprender”, relata.

A preocupação reforça o significado da apresentação na Fligê. Ao mostrar o Reisado para um público diverso, a comunidade também cria uma oportunidade para que os mais jovens reconheçam o valor de uma prática que foi aprendida dentro de casa, passada de pai para filho e preservada mesmo diante das transformações sociais e culturais.

Moradora de Barriguda e estudante de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Paloma Oliveira destaca justamente esse aspecto. Para ela, a presença na Feira Literária é uma forma de apresentar a força da comunidade para quem chega de outros lugares. “É um espaço muito importante para a gente mostrar a resistência e a força do nosso quilombo”, afirma.

A participação na Fligê ganha ainda mais significado diante da história cultural de Barriguda. Além do Reisado, a comunidade preservou manifestações como a Reza das Almas, as Trezenas de Santo Antônio e o Jarê, embora algumas tenham perdido força ao longo do tempo. O Reisado permanece entre as práticas que resistem, sustentado pela memória dos mestres e pela participação dos moradores.

A comunidade também carrega saberes ligados à agricultura, à culinária e às casas de farinha. São conhecimentos que ajudam a contar a história de um território formado por gerações de famílias negras. Na Fligê, a música também assumiu o papel de contar essa história. Com seus cantos, instrumentos e vestimentas, o Reisado da Barriguda levou ao público uma tradição que não está guardada só nos livros: está na voz de quem aprendeu com os mais velhos, nos passos de quem ainda participa das apresentações e na disposição de quem deseja fazer com que a cantiga continue.

“É muito importante”, resume Maria Flaziana ao falar sobre a continuidade do Reisado. Para ela, preservar a manifestação é também garantir que aquilo que foi recebido dos antepassados possa chegar às novas gerações.

Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.

O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.

Texto: Samara Dias

Fotos: Igor Chaves

 

 


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