Alunos de escolas municipais de Mucugê e de Palmeiras levaram suas quadrilhas ao palco, em apresentação que reuniu famílias, moradores e visitantes na 9ª edição da feira literária
O sol da tarde desta quinta-feira (13) ainda não tinha perdido força quando os primeiros acordes de forró começaram a ecoar pelos espaços da Fligê. Bandeirinhas coloridas, saias rodadas e sorrisos ansiosos anunciavam que, além dos livros e das rodas de conversa que marcam a Feira Literária de Mucugê, o São João também teria seu momento de protagonismo. Quadrilhas juninas, formadas por estudantes da rede municipal de ensino, tomaram o palco e transformaram a feira em um grande arraial a céu aberto.
Primeiro, foi a vez da Escola Anatalino Pina Medrado, que trouxe o tema “Atletas Show de Bola – Da Raiz ao Hexa”, numa mistura vibrante de futebol e tradição nordestina. Em seguida, Escolas Reunidas Dr. Rodrigues Lima ocuparam o espaço com “Os Garimpeiros”, homenagem à história de ocupação e trabalho que marcou a formação da própria cidade de Mucugê, erguida sobre a memória do garimpo de diamantes no século XIX. Entre um passo e outro, a plateia formada por pais, avós, moradores e turistas aplaudia, filmava e cantava junto, num reencontro entre a infância que dança e a cidade que a acolhe.
Mais do que uma apresentação cultural, o momento carrega, para quem está à frente das escolas, um significado que atravessa o calendário junino e se conecta diretamente com o propósito da Fligê: formar leitores, cidadãos e memória coletiva desde cedo. Para a diretora da Escola Anatalino Pina Medrado, Valdelice Lima, a quadrilha na Fligê é fruto de um trabalho que começa ainda no auge do São João. “O momento da participação deles na quadrilha é um momento muito importante, que é preparado desde a época do São João, que a gente organiza a quadrilha juntamente com a Prefeitura Municipal, Secretaria de Educação. Depois eles são convidados e vêm para dançar também na Fligê”, conta.
A presença da escola na feira, segundo ela, não se resume ao dia da apresentação. “Hoje nós tivemos a participação também da escola no cortejo. Algunos alunos participaram e eles sempre estão presentes em todos os momentos da Fligê. Também participamos até da Fligerzinha, juntamente com a equipe da escola, os professores, todos os funcionários”, relata, destacando o envolvimento de toda a comunidade escolar ao longo dos dias de evento.
Segundo, Valdelice, é justamente nesse trânsito entre o palco e a biblioteca que a Fligê cumpre sua função mais importante. “É um momento muito importante porque a Fligê vem trazendo a literatura, vem trazendo a ancestralidade, a identidade e nossos alunos são incentivados. Isso é um momento muito importante porque eles acabam conhecendo autores que eles sempre são trabalhados dentro da escola também, e a leitura, ela é fundamental para o crescimento do aluno, para a aprendizagem, e aí a gente vê que a Fligê proporciona isso para eles”, afirma.
Na plateia, entre tantos olhares atentos, estava Edilane Novaes, mãe da estudante Sofia Novaes, de 10 anos, aluna do 4º ano que dançou na quadrilha da Escola Anatalino Pina Medrado. Para Edilane, ver a filha vestida a caráter, rodopiando ao som do forró em meio à feira literária, é testemunhar algo que ultrapassa o espetáculo. “É muito importante porque é onde a escola se conecta com a cidade, todo mundo, o turista, né? E é importante também para a conectividade das crianças, e é onde eles gostam também de fazer, e para a gente é importante que é onde se torna a inclusão deles, com a literatura”, avalia.
Se para a Anatalino Pina Medrado a Fligê representa um ritual já consolidado, para as Escolas Reunidas Dr. Rodrigues Lima a relação com a feira remonta à própria origem do evento. O diretor Marcos George lembra que a escola participa desde a primeira edição, e hoje reúne 267 alunos envolvidos nas diversas atividades da programação.
“Escola Reunidas participam desde a primeira Fligê. Nós iniciamos participando nas visitações e pesquisas sobre os escritores. Depois, nós começamos a trabalhar com o município todo em produção literária, produzir poesias, contos e lançando um livro todos os anos, além de participar da abertura com cortejo literário e com as manifestações culturais”, relata.
Segundo o diretor, esse contato continuado com autores e obras muda a relação das crianças com a leitura, transformando-a em algo mais próximo e menos abstrato. “Eles desenvolvem mais o gosto pela leitura, eles se apropriam mais do conhecimento literário quando eles começam a pesquisar sobre cada escritor e a importância da literatura de cada um, do que cada um escreve.”
A força da Fligê em unir escola e literatura não ficou restrita aos estudantes de Mucugê. Vindos de Palmeiras, na Chapada Diamantina, alunos da Escola Municipal Souto Soares também se apresentaram, trazendo na bagagem não apenas trajes e coreografia, mas um pedaço da identidade cultural do próprio município. A comitiva reúne 62 estudantes do ensino fundamental, e ganhou um capítulo especial neste ano: a presença de ex-alunos que, hoje já cursando o ensino médio, fizeram questão de voltar para participar ao lado da turma mais nova.
Para a professora Katiane Teixeira, estar na Fligê com a quadrilha “Cavalheiros da Chapada”, é reencontrar, em outra cidade, um valor que já é cultivado em casa. “A Fligê, para os estudantes de Palmeiras, sempre é um evento de referência. Com todo o envolvimento com a literatura, envolvimento que Palmeiras também tem com a literatura. E essa oportunidade de estar aqui, eu acho que é muito enriquecedora o contato com a literatura e poder trazer um pouquinho da cultura de lá também, para eles mostrarem a arte deles, porque a literatura e a arte, tudo relacionado”, avalia.
A professora descreve o clima da turma antes da apresentação como uma mistura de ansiedade boa e orgulho. “Eles vieram assim, com muita empolgação, para poder participar do evento, ansiosos, felizes, e nós todos felizes com o convite. Porque a gente sabe da importância do evento, não só pra Mucugê, mas para toda região.” E encerra com um desejo que soa, ao mesmo tempo, como reconhecimento e inspiração: “É uma referência também para nós de Palmeiras. Sonhamos com o dia em que também podemos fazer uma feira desse nível”, completou.
Ao som do último acorde de forró, quando as crianças se dispersavam entre abraços e elogios, ficou a sensação de que a Fligê, mais uma vez, cumpriu seu papel de aproximar municípios e gerações, de Mucugê a Palmeiras, da sua história de garimpo e serra à sua vocação para a festa, e sobretudo do gosto pela palavra que se planta cedo, na infância, para florescer depois em leitores.
Fligê 2026 – A nona edição da Feira Literária de Mucugê foi contemplada no Edital de Apoio às Festas, Feiras e Festivais Literários (N.º 01/2024). O edital é direcionado à modalidade de fomento à execução de ações culturais, conforme o Decreto Federal N.º 11.453/2023, a Política Estadual de Cultura (Lei N.º 12.365/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.º 13.193/2014), o Plano Estadual de Educação da Bahia (Lei N.º 13.559/2016) e a Lei Federal N.º 14.133/2021.
O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.
Texto: Samara Dias
Fotos: Thiago Gama














