{"id":6755,"date":"2026-08-15T00:10:38","date_gmt":"2026-08-15T03:10:38","guid":{"rendered":"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/?p=6755"},"modified":"2026-08-19T15:55:39","modified_gmt":"2026-08-19T18:55:39","slug":"vozes-que-romperam-o-silencio-slam-insubmisso-reune-autoras-negras-baianas-na-flige-2026","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/vozes-que-romperam-o-silencio-slam-insubmisso-reune-autoras-negras-baianas-na-flige-2026\/","title":{"rendered":"Vozes que romperam o sil\u00eancio: Slam Insubmisso re\u00fane autoras negras baianas na Flig\u00ea 2026"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\"><em>Na noite desta sexta-feira (15), o Encontro Autoral apresentou o pr\u00e9-lan\u00e7amento da 15\u00aa obra do Di\u00e1logos Insubmissos e revelou ao p\u00fablico a estreia da poeta Eva Doce<\/em><\/h4>\n<p>A noite de sexta-feira (15) na Flig\u00ea teve o peso e a beleza de um gesto hist\u00f3rico. No palco montado para o Encontro Autoral, a edi\u00e7\u00e3o Autoras Negras Baianas do Slam Insubmisso reuniu escritoras, pesquisadoras e uma plateia majoritariamente jovem para testemunhar algo que, at\u00e9 poucas d\u00e9cadas atr\u00e1s, praticamente n\u00e3o existia nos palcos das feiras liter\u00e1rias brasileiras: mulheres negras falando sobre sua pr\u00f3pria literatura, com autoridade e sem pedir licen\u00e7a.<\/p>\n<p>O encontro marcou tamb\u00e9m o pr\u00e9-lan\u00e7amento da 15\u00aa obra do Instituto Di\u00e1logos Insubmissos de Mulheres Negras (DIMN), que ser\u00e1 lan\u00e7ada oficialmente em Salvador nas pr\u00f3ximas semanas, e apresentou ao p\u00fablico da Flig\u00ea a estreia de uma nova voz da poesia baiana, a cantora, atriz, modelo e escritora Eva Doce.<\/p>\n<p>Fundado em 2017 por Dayse Sacramento, o projeto Di\u00e1logos Insubmissos nasceu de uma constata\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda: a aus\u00eancia recorrente de autoras negras na programa\u00e7\u00e3o das grandes festas liter\u00e1rias do pa\u00eds. Mais do que uma constata\u00e7\u00e3o, tornou-se um movimento coletivo de cobran\u00e7a e de constru\u00e7\u00e3o de lugares pr\u00f3prios de fala.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6637.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6887 alignleft\" src=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6637-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6637-225x300.jpg 225w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6637-768x1024.jpg 768w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6637-1152x1536.jpg 1152w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6637.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a>&#8220;O Di\u00e1logos Insubmissos, desde 2017, reconhece uma aus\u00eancia, uma rasura da presen\u00e7a de autoras negras em festas liter\u00e1rias&#8221;, contou Dayse. &#8220;Isso vem mudando no decorrer dos anos, e isso \u00e9 fruto de uma queixa coletiva. Eu digo queixa no lugar mesmo da cobran\u00e7a, da reclama\u00e7\u00e3o, do questionamento das curadorias das festas liter\u00e1rias sobre essa presen\u00e7a da produ\u00e7\u00e3o intelectual de mulheres negras&#8221;, completou.<\/p>\n<p>Ao longo de uma d\u00e9cada, o trabalho da organiza\u00e7\u00e3o se voltou a fomentar e produzir lugares de fala para escritoras que, muitas vezes, participavam pela primeira vez de um evento liter\u00e1rio como autoras publicadas. Para Dayse, cada uma dessas estreias carrega um significado que ultrapassa o individual.<\/p>\n<p>&#8220;Quando a gente est\u00e1 num evento liter\u00e1rio com uma jovem que nunca participou de uma festa liter\u00e1ria e que est\u00e1 vindo pela primeira vez como autora, a gente reverte muita coisa que historicamente o racismo apagou da presen\u00e7a de pessoas pretas na vida editorial do pa\u00eds&#8221;, afirmou. &#8220;As mulheres negras s\u00e3o o maior percentual populacional do pa\u00eds, somos 27,5%. Ent\u00e3o n\u00e3o tem festa liter\u00e1ria que se justifique com a aus\u00eancia das autoras.&#8221;<\/p>\n<p>O Instituto Di\u00e1logos Insubmissos de Mulheres Negras, sediado em Salvador, atua na valoriza\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o intelectual de mulheres negras, com foco nos debates raciais protagonizados por suas contribui\u00e7\u00f5es, pesquisas e ativismos. A organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se dedica \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de livros como forma de fortalecer os registros da mem\u00f3ria negra na di\u00e1spora africana e realiza eventos autogestionados que dialogam com outras linguagens art\u00edsticas, al\u00e9m de participar de feiras liter\u00e1rias nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>O pr\u00e9-lan\u00e7amento apresentado na Flig\u00ea integra uma trajet\u00f3ria editorial que come\u00e7ou em novembro de 2021, com a publica\u00e7\u00e3o de &#8220;Insubmiss\u00e3o Intelectual de Mulheres Negras Nordestinas&#8221;, uma antologia reunindo textos de autoras de cada estado do Nordeste, traduzida tamb\u00e9m para o espanhol.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o projeto chegou \u00e0 sua 15\u00aa obra, a maior parte delas produzida em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Rosa Luxemburgo e disponibilizada gratuitamente em vers\u00e3o digital. J\u00e1 impressas, entre edi\u00e7\u00f5es em parceria e produ\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, o Di\u00e1logos Insubmissos soma quase oito mil livros distribu\u00eddos, quase sempre sem qualquer aporte do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8220;A gente de alguma forma faz uma pol\u00edtica de promo\u00e7\u00e3o da leitura, de difus\u00e3o do trabalho intelectual de mulheres negras sem o amparo do Estado&#8221;, explicou Dayse Sacramento, destacando que a distribui\u00e7\u00e3o gratuita \u00e9 sustentada principalmente pelos projetos apoiados pela Funda\u00e7\u00e3o Rosa Luxemburgo. Para a idealizadora do projeto, a qualidade est\u00e9tica das publica\u00e7\u00f5es \u00e9 um compromisso t\u00e3o importante quanto o conte\u00fado. &#8220;S\u00e3o livros feitos com preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica tamb\u00e9m, que \u00e9 muito importante para n\u00f3s, pessoas pretas que estamos fazendo a publica\u00e7\u00e3o. A gente sabe que \u00e9 muito caro fazer livro, ent\u00e3o a gente tem a possibilidade de fazer os livros com essa qualidade, e a qualidade est\u00e9tica eu digo tamb\u00e9m sobre o conforto da leitura.&#8221;<\/p>\n<p>Entre as vozes apresentadas na noite de estreia estava Eva Doce, nome art\u00edstico de Diana Ramos, cantora, atriz, modelo e escritora de 23 anos, uma das autoras da 15\u00aa obra do Di\u00e1logos Insubmissos, que esteve no pr\u00e9-lan\u00e7amento do livro na Flig\u00ea e viu, ali, um sonho antigo se materializar pela primeira vez.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6691.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6890 alignright\" src=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6691-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6691-225x300.jpg 225w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6691-768x1024.jpg 768w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6691-1152x1536.jpg 1152w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6691.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a>Para Eva, a escrita nasceu como um processo de cura antes de se tornar literatura publicada. &#8220;Quando eu iniciei a escrever, a poesia se tornou uma tecnologia de cura&#8221;, contou. &#8220;Encontrar o coletivo Slam Insubmisso foi muito importante porque eles d\u00e3o uma mat\u00e9ria, um local, para as poesias, que s\u00e3o os livros, que eu nunca imaginei que eu poderia escrever e estar em livros como poeta. Era um sonho um pouco distante, mas eu percebi que ele estava muito mais perto de mim do que eu imaginava&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Mais do que a realiza\u00e7\u00e3o pessoal, a jovem poeta enxerga no livro um instrumento de mem\u00f3ria e de legado. &#8220;Isso \u00e9 muito importante porque outras pessoas podem ver esse livro, como eu penso, como eu vejo o mundo. Meus pr\u00f3ximos descendentes que v\u00e3o vir depois de mim v\u00e3o poder entender quem \u00e9 Eva Doce.&#8221; Na Flig\u00ea, ela viveu tamb\u00e9m sua primeira experi\u00eancia diante do p\u00fablico de uma feira liter\u00e1ria, participando do pr\u00e9-lan\u00e7amento que introduziu sua obra ao circuito editorial baiano.<\/p>\n<p>Entre o p\u00fablico que acompanhou o encontro estava a professora Maria do Socorro Aquino, que j\u00e1 havia participado de outras edi\u00e7\u00f5es da Flig\u00ea, mas destacou o ineditismo de assistir a uma mesa inteiramente dedicada \u00e0 literatura de autoras negras. &#8220;Esse tipo de mesa \u00e9 muito recente na hist\u00f3ria da literatura brasileira. H\u00e1 at\u00e9 30 anos ningu\u00e9m nem falava em escritoras negras. E estarmos em uma feira ouvindo mulheres negras falando sobre essa literatura \u00e9 um avan\u00e7o muito grande, principalmente para um p\u00fablico jovem&#8221;, avaliou.<\/p>\n<p>A escritora Anny Argola tamb\u00e9m acompanhou a conversa de olhos emocionados e ouvidos atentos. Ela refor\u00e7ou a import\u00e2ncia simb\u00f3lica de ver a Flig\u00ea abrigar um encontro como esse. Curadora da Feira Liter\u00e1ria de Entre Rios, a escritora avaliou que o evento cumpre um papel de inspira\u00e7\u00e3o para outras iniciativas do g\u00eanero pelo interior baiano. &#8220;A Flig\u00ea \u00e9 um palco para a gente que precisa se inspirar tamb\u00e9m em feiras liter\u00e1rias. E ver na Flig\u00ea realmente uma mesa de mulheres negras \u00e9 se sentir representada&#8221;, disse. &#8220;A gente sabe perfeitamente que por muito tempo essas vozes foram caladas, discriminadas, e hoje a Flig\u00ea abre portas para isso. Ent\u00e3o a gente se sente grata e representada tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Ao reunir uma trajet\u00f3ria de dez anos de resist\u00eancia editorial, o pr\u00e9-lan\u00e7amento de uma 15\u00aa obra e a estreia de uma nova voz po\u00e9tica, o Slam Insubmisso, na edi\u00e7\u00e3o Autoras Negras Baianas, condensou na Flig\u00ea 2026 um pouco da hist\u00f3ria recente da literatura negra brasileira e do longo caminho que ainda resta para que essas vozes deixem de ser exce\u00e7\u00e3o nos palcos liter\u00e1rios do pa\u00eds. Entre aplausos, poesia recitada e relatos de supera\u00e7\u00e3o, a noite confirmou que, para al\u00e9m da estreia de Eva Doce, o que se lan\u00e7ou ali foi a continuidade de um movimento que j\u00e1 n\u00e3o pede espa\u00e7o: ele o ocupa.<\/p>\n<p>Texto: Samara Dias<\/p>\n<p>Foto: Thalis Ribeiro<\/p>\n<p><b>Flig\u00ea 2026 \u2013<\/b>\u00a0A nona edi\u00e7\u00e3o da Feira Liter\u00e1ria de Mucug\u00ea foi contemplada no Edital de Apoio \u00e0s Festas, Feiras e Festivais Liter\u00e1rios (N.\u00ba 01\/2024). O edital \u00e9 direcionado \u00e0 modalidade de fomento \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es culturais, conforme o Decreto Federal N.\u00ba 11.453\/2023, a Pol\u00edtica Estadual de Cultura (Lei N.\u00ba 12.365\/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.\u00ba 13.193\/2014), o Plano Estadual de Educa\u00e7\u00e3o da Bahia (Lei N.\u00ba 13.559\/2016) e a Lei Federal N.\u00ba 14.133\/2021.<\/p>\n<p>O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifus\u00e3o Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado \u00e0 Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na noite desta sexta-feira (15), o Encontro Autoral apresentou o pr\u00e9-lan\u00e7amento da 15\u00aa obra do Di\u00e1logos Insubmissos e revelou ao p\u00fablico a estreia da poeta Eva Doce A noite de sexta-feira (15) na Flig\u00ea teve o peso e a beleza de um gesto hist\u00f3rico. 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