{"id":6726,"date":"2026-08-14T18:35:44","date_gmt":"2026-08-14T21:35:44","guid":{"rendered":"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/?p=6726"},"modified":"2026-08-19T15:54:39","modified_gmt":"2026-08-19T18:54:39","slug":"escravidao-garimpo-e-pedra-mesa-do-iphan-reconta-a-formacao-da-chapada-diamantina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/escravidao-garimpo-e-pedra-mesa-do-iphan-reconta-a-formacao-da-chapada-diamantina\/","title":{"rendered":"Escravid\u00e3o, garimpo e pedra: mesa do Iphan reconta a forma\u00e7\u00e3o da Chapada Diamantina"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"font-weight: 400;\">Larissa Souza, Fabiane Santos Ribeiro e Valdenberg Trindade percorrem o ciclo do diamante de Mucug\u00ea a Len\u00e7\u00f3is e prop\u00f5em o termo &#8220;barroco chapadeiro&#8221; para pensar a arquitetura da Chapada Diamantina.<\/span><\/em><\/h4>\n<p>Antes de virar patrim\u00f4nio, a Chapada Diamantina foi pedra bruta, palha e suor. Foi essa hist\u00f3ria, escrita por m\u00e3os de garimpeiros muito antes de qualquer tombamento, que a mesa tem\u00e1tica &#8220;Caminhos da Constru\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica, Cultural e Arquitet\u00f4nica do Barroco na Chapada Diamantina&#8221; trouxe \u00e0 Feira Liter\u00e1ria de Mucug\u00ea (Flig\u00ea), com a participa\u00e7\u00e3o de Larissa Souza, representante do Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan), Fabiane Santos Ribeiro e o escritor Valdenberg Trindade.<\/p>\n<p>Larissa abriu a apresenta\u00e7\u00e3o com uma cronologia da ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o a partir da minera\u00e7\u00e3o. &#8220;A riqueza n\u00e3o ficava com eles, eles eram trabalhadores. Tem um passado escravagista tamb\u00e9m nessa explora\u00e7\u00e3o do ouro&#8221;, afirmou, referindo-se aos garimpeiros que deram origem aos primeiros povoados da Chapada. Segundo ela, as moradias desses trabalhadores refletiam essa desigualdade: &#8220;Os locais onde eles moravam eram habita\u00e7\u00f5es muito mais simples, muitas vezes at\u00e9 em espa\u00e7os que existiam nas rochas, cobertos com palha&#8221;, contou.<\/p>\n<p>Esse primeiro assentamento, contou Larissa, come\u00e7ou em cabanas de tecido e foi se consolidando \u00e0 medida que a riqueza da regi\u00e3o atra\u00eda mais moradores, chegando a somar cerca de trinta mil habitantes. No espa\u00e7o hoje ocupado pelo Parque Luiz Santos, por exemplo, existiam casas de pedra constru\u00eddas por garimpeiros em lotes de explora\u00e7\u00e3o manual, sem uso de maquin\u00e1rio. &#8220;Quando acabava, ia para outro lugar do garimpo tamb\u00e9m&#8221;, completou.<\/p>\n<p>Essa mesma l\u00f3gica de expans\u00e3o apareceu nos slides que detalharam etapas posteriores do ciclo. Em Andara\u00ed, caminhos e rios estruturaram o crescimento territorial da minera\u00e7\u00e3o; em Igatu, a ocupa\u00e7\u00e3o ficou diretamente ligada ao garimpo, com constru\u00e7\u00f5es em pedra e forte adapta\u00e7\u00e3o ao relevo, hoje vistas nas ru\u00ednas e estruturas mineradoras que restaram. J\u00e1 Len\u00e7\u00f3is, fundada em 1845, representou o auge desse ciclo: tornou-se o principal entreposto comercial da regi\u00e3o, com com\u00e9rcio internacional, comerciantes estrangeiros e a maior acumula\u00e7\u00e3o de riqueza, momento em que, segundo a apresenta\u00e7\u00e3o, &#8220;o garimpo transforma-se em sociedade urbana&#8221;.<\/p>\n<p>Coube a Valdenberg Trindade situar o sentido pol\u00edtico da mesa. Para o escritor, o debate representou uma tomada de posi\u00e7\u00e3o diante da fragmenta\u00e7\u00e3o de narrativas sobre a arquitetura da Chapada. &#8220;A Chapada \u00e9 muito rica, tem diversos ciclos, que se inicia com o Rio de Contas de uma forma mais tardia, Mucug\u00ea, Len\u00e7\u00f3is e outras cidades tamb\u00e9m, Andara\u00ed e outras cidades j\u00e1 no ciclo do diamante, Rio de Contas no ciclo do ouro&#8221;, explicou. Segundo ele, a proposta foi abordar &#8220;esse conjunto, essas camadas de forma\u00e7\u00e3o da Chapada Diamantina que compreende n\u00e3o somente os monumentos e as atra\u00e7\u00f5es naturais, mas a gente da Chapada, a cultura, a hist\u00f3ria, as mem\u00f3rias e o pertencimento&#8221;.<\/p>\n<p>Foi nesse contexto que Valdenberg apresentou o termo &#8220;barroco chapadeiro&#8221;, express\u00e3o cunhada pelos pr\u00f3prios participantes da mesa, e n\u00e3o um conceito consolidado na historiografia da arquitetura. &#8220;Essa ideia que n\u00f3s batizamos at\u00e9 de barroco chapadeiro&#8221;, disse, definindo-a como &#8220;esse conjunto maravilhoso que eu acho que at\u00e9 o mundo torna essa coisa da admira\u00e7\u00e3o pela Chapada Diamantina uma coisa mais afetiva&#8221;.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m levantou uma tens\u00e3o que atravessa hoje as cidades hist\u00f3ricas da regi\u00e3o: como conservar a autenticidade dos centros hist\u00f3ricos sem transform\u00e1-los em cen\u00e1rios tur\u00edsticos, diante de press\u00f5es como gentrifica\u00e7\u00e3o e novas demandas urbanas. Para a equipe do Iphan, o patrim\u00f4nio da Chapada Diamantina n\u00e3o pode ser entendido apenas como arquitetura, mas como uma composi\u00e7\u00e3o entre relevo, minera\u00e7\u00e3o, religiosidade, paisagem natural e mem\u00f3ria social, j\u00e1 que separar esses elementos \u00e9 perder a ess\u00eancia do conjunto.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o da mesa resume essa vis\u00e3o: talvez o maior patrim\u00f4nio da regi\u00e3o n\u00e3o esteja em nenhum edif\u00edcio isolado, mas na forma como ruas, montanhas, largos, casarios, rios e igrejas dialogam entre si, formando uma paisagem em que arquitetura e natureza deixam de ser categorias distintas. A verdadeira obra de arte, nesse sentido, \u00e9 a pr\u00f3pria cidade inserida na paisagem.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Rep\u00f3rter: Kamile Cardoso\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fot\u00f3grafo: Thalis Ribeiro\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Flig\u00ea 2026 \u2013<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> A nona edi\u00e7\u00e3o da Feira Liter\u00e1ria de Mucug\u00ea foi contemplada no Edital de Apoio \u00e0s Festas, Feiras e Festivais Liter\u00e1rios (N.\u00ba 01\/2024). O edital \u00e9 direcionado \u00e0 modalidade de fomento \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es culturais, conforme o Decreto Federal N.\u00ba 11.453\/2023, a Pol\u00edtica Estadual de Cultura (Lei N.\u00ba 12.365\/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.\u00ba 13.193\/2014), o Plano Estadual de Educa\u00e7\u00e3o da Bahia (Lei N.\u00ba 13.559\/2016) e a Lei Federal N.\u00ba 14.133\/2021.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifus\u00e3o Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado \u00e0 Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Larissa Souza, Fabiane Santos Ribeiro e Valdenberg Trindade percorrem o ciclo do diamante de Mucug\u00ea a Len\u00e7\u00f3is e prop\u00f5em o termo &#8220;barroco chapadeiro&#8221; para pensar a arquitetura da Chapada Diamantina. 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