{"id":6603,"date":"2026-08-13T19:14:45","date_gmt":"2026-08-13T22:14:45","guid":{"rendered":"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/?p=6603"},"modified":"2026-08-19T15:44:03","modified_gmt":"2026-08-19T18:44:03","slug":"reisado-da-barriguda-leva-a-flige-os-cantos-de-uma-memoria-que-atravessa-geracoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/reisado-da-barriguda-leva-a-flige-os-cantos-de-uma-memoria-que-atravessa-geracoes\/","title":{"rendered":"Reisado da Barriguda leva \u00e0 Flig\u00ea os cantos de uma mem\u00f3ria que atravessa gera\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\"><em>Na mostra de Reisados, comunidade quilombola transforma tradi\u00e7\u00e3o, ancestralidade e resist\u00eancia em encontro com o p\u00fablico da Feira Liter\u00e1ria de Mucug\u00ea<\/em><\/h4>\n<p>O pandeiro marcou o tempo, o viol\u00e3o costurou a melodia e o grupo de vozes entoou versos que atravessaram mais de sessenta anos at\u00e9 chegar \u00e0 Pra\u00e7a da Lanterna. Foi assim que o Reisado da comunidade quilombola da Barriguda voltou a se apresentar na Feira Liter\u00e1ria de Mucug\u00ea (Flig\u00ea), trazendo consigo uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia, f\u00e9 e mem\u00f3ria.<\/p>\n<p data-sourcepos=\"7:1-7:499;567-1065\">A apresenta\u00e7\u00e3o reuniu moradores de diferentes gera\u00e7\u00f5es, das mais antigas \u00e0s mais jovens, em torno de um repert\u00f3rio que a comunidade preserva desde a d\u00e9cada de 1960. Entre um verso e outro, o p\u00fablico que compareceu a pra\u00e7a acompanhou n\u00e3o apenas uma performance, mas um peda\u00e7o da hist\u00f3ria da Barriguda, quilombo localizado a 55 quil\u00f4metros de Mucug\u00ea, na divisa com Palmeiras, reconhecido pela Funda\u00e7\u00e3o Palmares desde 2011 e formado por 74 fam\u00edlias reunidas em torno da Associa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria de Barriguda. Foi desse territ\u00f3rio, marcado por hist\u00f3rias familiares e tradi\u00e7\u00f5es transmitidas oralmente, que o Reisado chegou \u00e0 Flig\u00ea para ser apresentado n\u00e3o apenas como uma express\u00e3o cultural, mas como parte viva da identidade de seus moradores.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/17.jpg-1.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-large wp-image-6680\" src=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/17.jpg-1-1024x589.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"589\" srcset=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/17.jpg-1-1024x589.jpeg 1024w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/17.jpg-1-300x173.jpeg 300w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/17.jpg-1-768x442.jpeg 768w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/17.jpg-1-400x230.jpeg 400w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/17.jpg-1-870x500.jpeg 870w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/17.jpg-1.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para Maria Flaziana da Silva, 62 anos, nascida e criada em Barriguda e participante do Reisado desde a inf\u00e2ncia, estar na Flig\u00ea \u00e9 uma oportunidade de compartilhar essa hist\u00f3ria com novos p\u00fablicos. \u201c\u00c9 muito bom participar do Reisado, ser uma pessoa da comunidade quilombola de Barriguda e participar do Reisado. Assim como os meus antepassados, quero continuar a nossa tradi\u00e7\u00e3o e deixar para os jovens. A nova gera\u00e7\u00e3o vai continuar\u201d, disse.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m representa, para os moradores, uma forma de fazer com que uma tradi\u00e7\u00e3o que nasceu no cotidiano da comunidade alcance outros lugares sem perder suas ra\u00edzes. Maria define o Reisado como um momento de encontro e alegria: \u201cO Reisado \u00e9 muito bom. \u00c9 um momento de alegria. Todos gostam de participar&#8221;, contou com um sorriso no rosto.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a manifesta\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria familiar aparece com for\u00e7a na hist\u00f3ria do mestre gri\u00f4 C\u00e2ndido Pereira de Sousa. Filho de um reiseiro, ele aprendeu os cantos acompanhando o pai, que havia aprendido a tradi\u00e7\u00e3o no Pati. Segundo C\u00e2ndido, seu pai levou o Reisado para Barriguda quando se mudou para a comunidade, em 1964, retomando uma pr\u00e1tica que j\u00e1 existia no local, mas que havia perdido for\u00e7a com a morte ou a mudan\u00e7a de antigos integrantes.<\/p>\n<p>\u201cMeu pai era reiseiro, agora eu n\u00e3o sou reiseiro n\u00e3o\u201d, conta C\u00e2ndido. Apesar de n\u00e3o se definir como reiseiro, foi acompanhando o pai que ele aprendeu os cantos e passou a participar das jornadas. Durante anos, os grupos percorriam casas e comunidades, cantando entre os primeiros dias de janeiro e o Dia de Reis, em 6 de janeiro. As visitas tamb\u00e9m ajudavam a arrecadar recursos para a realiza\u00e7\u00e3o da festa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/16.jpg-1.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-large wp-image-6678\" src=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/16.jpg-1-1024x589.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"589\" srcset=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/16.jpg-1-1024x589.jpeg 1024w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/16.jpg-1-300x173.jpeg 300w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/16.jpg-1-768x442.jpeg 768w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/16.jpg-1-400x230.jpeg 400w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/16.jpg-1-870x500.jpeg 870w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/16.jpg-1.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A mem\u00f3ria dessas jornadas ainda est\u00e1 presente na comunidade. C\u00e2ndido conta que o pai chegava a passar v\u00e1rios dias fora de casa, percorrendo diferentes lugares com o grupo. O Reisado, assim, n\u00e3o se restringia a uma apresenta\u00e7\u00e3o: era uma pr\u00e1tica de conviv\u00eancia, circula\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o, que aproximava moradores e fortalecia os v\u00ednculos comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa mem\u00f3ria que o grupo apresentou na Flig\u00ea. Ao ocupar o espa\u00e7o da Feira, o Reisado da Barriguda transforma a tradi\u00e7\u00e3o em encontro com o p\u00fablico e reafirma a import\u00e2ncia de preservar manifesta\u00e7\u00f5es que fazem parte da hist\u00f3ria cultural do territ\u00f3rio.\u00a0Para C\u00e2ndido, entretanto, manter essa tradi\u00e7\u00e3o viva \u00e9 um desafio. O mestre observa que a participa\u00e7\u00e3o dos jovens tem diminu\u00eddo e teme que o Reisado siga o caminho de outras manifesta\u00e7\u00f5es que perderam espa\u00e7o na comunidade. \u201cO dif\u00edcil \u00e9 que a juventude n\u00e3o liga muito. A gente canta e tudo, e faz alguma apresenta\u00e7\u00e3o, mas muitos jovens n\u00e3o querem aprender\u201d, relata.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o refor\u00e7a o significado da apresenta\u00e7\u00e3o na Flig\u00ea. Ao mostrar o Reisado para um p\u00fablico diverso, a comunidade tamb\u00e9m cria uma oportunidade para que os mais jovens reconhe\u00e7am o valor de uma pr\u00e1tica que foi aprendida dentro de casa, passada de pai para filho e preservada mesmo diante das transforma\u00e7\u00f5es sociais e culturais.<\/p>\n<p>Moradora de Barriguda e estudante de Ci\u00eancias Ambientais da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia (UFRB), Paloma Oliveira destaca justamente esse aspecto. Para ela, a presen\u00e7a na Feira Liter\u00e1ria \u00e9 uma forma de apresentar a for\u00e7a da comunidade para quem chega de outros lugares. \u201c\u00c9 um espa\u00e7o muito importante para a gente mostrar a resist\u00eancia e a for\u00e7a do nosso quilombo\u201d, afirma.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/19.jpg-1.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-large wp-image-6682\" src=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/19.jpg-1-1024x589.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"589\" srcset=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/19.jpg-1-1024x589.jpeg 1024w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/19.jpg-1-300x173.jpeg 300w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/19.jpg-1-768x442.jpeg 768w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/19.jpg-1-400x230.jpeg 400w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/19.jpg-1-870x500.jpeg 870w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/19.jpg-1.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o na Flig\u00ea ganha ainda mais significado diante da hist\u00f3ria cultural de Barriguda. Al\u00e9m do Reisado, a comunidade preservou manifesta\u00e7\u00f5es como a Reza das Almas, as Trezenas de Santo Ant\u00f4nio e o Jar\u00ea, embora algumas tenham perdido for\u00e7a ao longo do tempo. O Reisado permanece entre as pr\u00e1ticas que resistem, sustentado pela mem\u00f3ria dos mestres e pela participa\u00e7\u00e3o dos moradores.<\/p>\n<p>A comunidade tamb\u00e9m carrega saberes ligados \u00e0 agricultura, \u00e0 culin\u00e1ria e \u00e0s casas de farinha. S\u00e3o conhecimentos que ajudam a contar a hist\u00f3ria de um territ\u00f3rio formado por gera\u00e7\u00f5es de fam\u00edlias negras. Na Flig\u00ea, a m\u00fasica tamb\u00e9m assumiu o papel de contar essa hist\u00f3ria. Com seus cantos, instrumentos e vestimentas, o Reisado da Barriguda levou ao p\u00fablico uma tradi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 guardada s\u00f3 nos livros: est\u00e1 na voz de quem aprendeu com os mais velhos, nos passos de quem ainda participa das apresenta\u00e7\u00f5es e na disposi\u00e7\u00e3o de quem deseja fazer com que a cantiga continue.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito importante\u201d, resume Maria Flaziana ao falar sobre a continuidade do Reisado. Para ela, preservar a manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m garantir que aquilo que foi recebido dos antepassados possa chegar \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Flig\u00ea 2026 &#8211;<\/strong> A nona edi\u00e7\u00e3o da Feira Liter\u00e1ria de Mucug\u00ea foi contemplada no Edital de Apoio \u00e0s Festas, Feiras e Festivais Liter\u00e1rios (N.\u00ba 01\/2024). O edital \u00e9 direcionado \u00e0 modalidade de fomento \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es culturais, conforme o Decreto Federal N.\u00ba 11.453\/2023, a Pol\u00edtica Estadual de Cultura (Lei N.\u00ba 12.365\/2011), o Plano Estadual de Cultura (Lei N.\u00ba 13.193\/2014), o Plano Estadual de Educa\u00e7\u00e3o da Bahia (Lei N.\u00ba 13.559\/2016) e a Lei Federal N.\u00ba 14.133\/2021.<\/p>\n<p>O projeto conta ainda com o apoio cultural do Instituto de Radiodifus\u00e3o Educativa da Bahia (IRDEB), vinculado \u00e0 Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado da Bahia, por meio da TVE Bahia.<\/p>\n<p>Texto: Samara Dias<\/p>\n<p>Fotos: Igor Chaves<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na mostra de Reisados, comunidade quilombola transforma tradi\u00e7\u00e3o, ancestralidade e resist\u00eancia em encontro com o p\u00fablico da Feira Liter\u00e1ria de Mucug\u00ea O pandeiro marcou o tempo, o viol\u00e3o costurou a melodia e o grupo de vozes entoou versos que atravessaram mais de sessenta anos at\u00e9 chegar \u00e0 Pra\u00e7a da Lanterna. 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