{"id":5935,"date":"2024-07-26T10:53:57","date_gmt":"2024-07-26T13:53:57","guid":{"rendered":"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2024\/?p=5935"},"modified":"2024-08-01T10:55:39","modified_gmt":"2024-08-01T13:55:39","slug":"casarao-das-letras-conversas-diamantinas-entre-ritos-e-paisagens","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/casarao-das-letras-conversas-diamantinas-entre-ritos-e-paisagens\/","title":{"rendered":"Casar\u00e3o das Letras: Conversas diamantinas entre ritos e paisagens"},"content":{"rendered":"<div dir=\"auto\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>No dia 26 de julho foi discutido no Casar\u00e3o Letras Diamantinas como o jar\u00ea, os saberes ancestrais e as quest\u00f5es \u00e9tnico-raciais se entrela\u00e7am no romance \u201cTorto Arado\u201d, de Itamar Vieira Junior.<\/em><\/p>\n<p>No dia 26 de julho, \u00e0s 11h, aconteceu no Casar\u00e3o Letras Diamantinas, a mesa \u201cConversas diamantinas entre ritos e paisagens\u201d, com Jovina Souza, Alex Concei\u00e7\u00e3o e Nadja Leite. A media\u00e7\u00e3o foi de Cristina Pina. A discuss\u00e3o girou em torno dos entrela\u00e7amentos entre o jar\u00ea, os saberes ancestrais e as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais no romance \u201cTorto Arado\u201d, Itamar Vieira Junior.<\/p>\n<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">O termo \u201cjar\u00ea\u201d de origem iorub\u00e1 significa \u201ccortar atrav\u00e9s\u201d, outra possibilidade \u00e9 que seja altera\u00e7\u00e3o do nome \u201cnjale\u201d, palavra que designava uma cerim\u00f4nia de povos da atual Nig\u00e9ria e Benim. De modo geral, o termo \u00e9 utilizado para designar a religi\u00e3o e ocasi\u00f5es ritual\u00edsticas que surgiram no interior da Bahia, em meados do s\u00e9culo XIX, nas cidades de Len\u00e7\u00f3is e Andara\u00ed, na Chapada Diamantina. Essa manifesta\u00e7\u00e3o religiosa se vincula ao surgimento da minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, marcada pela m\u00e3o de obra escravizada, nos locais que se configuram como quilombos. Atrav\u00e9s da hist\u00f3ria oral, o jar\u00ea se espalhou por diversas \u00e1reas da regi\u00e3o entre os pretos, pardos, ind\u00edgenas e caboclos, sofrendo persegui\u00e7\u00f5es policiais brutais e cerceamento por parte da Igreja Cat\u00f3lica.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-5937\" src=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/290.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"800\" srcset=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/290.png 1080w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/290-300x300.png 300w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/290-1024x1024.png 1024w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/290-150x150.png 150w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/290-768x768.png 768w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/290-500x500.png 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Atualmente, ainda que com dificuldade para manter essa religi\u00e3o viva, \u00e9 poss\u00edvel identificar diversos terreiros de jar\u00ea na Chapada Diamantina, tendo muitos adeptos que continuam a pratic\u00e1-lo. A pr\u00e1tica religiosa foi desenvolvida por pessoas escravizadas e libertas provenientes das cidades de Cachoeira e S\u00e3o F\u00e9lix, e que foram levadas \u00e0 Chapada Diamantina devido ao garimpo. Ali praticavam o jar\u00ea de nag\u00f4 e bantu, onde cultuavam exclusivamente os orix\u00e1s africanos, com a conviv\u00eancias com descendentes de ind\u00edgenas que habitavam a regi\u00e3o, foi-se sendo incorporadas outras entidades representativas da cultura ind\u00edgena, o que delineia a atual configura\u00e7\u00e3o do jar\u00ea: di\u00e1logo afro-ind\u00edgena com catolicismo rural, umbanda e espiritismo kardecista.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">De acordo com a pesquisadora do jar\u00ea e professora, Jovina Souza, \u201cs\u00e3o as narrativas vividas por nossos antepassados pretos e ind\u00edgenas. Essa jun\u00e7\u00e3o do jar\u00ea que menciona os povos caboclos, isso \u00e9 resultado de uma pr\u00e1tica dos bantus, onde eles procuravam estabelecer rela\u00e7\u00f5es com os donos da terra, os povos ind\u00edgenas, ent\u00e3o por isso que o jar\u00ea \u00e9 muito forte no seu di\u00e1logo com os caboclos\u201d, relata Jovina. Contudo, conforme se pode observar vamos identificar a presen\u00e7a de alguns elementos da cultura branca, o catolicismo, que para Jovina, foi outra estrat\u00e9gia dos povos pretos para se aproximar dos deuses dos brancos, numa tentativa v\u00e3 de sensibilizar os brancos ao clamar por seus deuses, o que n\u00e3o deu certo. Essa \u00e9 outra narrativa que pula das cantigas do jar\u00ea enquanto equ\u00edvocos hist\u00f3ricos.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Pensar o jar\u00ea e suas cantigas \u00e9 pensar em s\u00e3o saberes ancestrais que evocam oralituras e oralidades. Para a pesquisadora e escritora Nadja Leite, a partir da leitura do livro \u201cTorto Arado\u201d, de Itamar Vieira Junior, intenta pensar a decolonialidade do saber com o objetivo de confrontar o poder branco e os saberes do eurocentrismo. Para Nadja mesmo com a coloniza\u00e7\u00e3o e escraviza\u00e7\u00e3o, o povo negro n\u00e3o foi derrotado porque esses saberes ancestrais sustentaram essa popula\u00e7\u00e3o. \u201cComo Nego Bispo diz: \u2018porque mesmo que queimem a escrita, n\u00e3o queimar\u00e3o a oralidade. Mesmo que queimem os s\u00edmbolos, n\u00e3o queimar\u00e3o os significados. Mesmo queimando o nosso povo, n\u00e3o queimar\u00e3o a ancestralidade.\u2019 Ent\u00e3o mesmo que o projeto de governo dessa colonialidade tenha sido t\u00e3o bem estabelecido n\u00e3o houve esse exterm\u00ednio, de fato, de toda uma cultura\u201d, diz.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-5940\" src=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/293.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"800\" srcset=\"http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/293.png 1080w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/293-300x300.png 300w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/293-1024x1024.png 1024w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/293-150x150.png 150w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/293-768x768.png 768w, http:\/\/fligemucuge.com.br\/2025\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/293-500x500.png 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Dessa forma, se observa que o jar\u00ea e os saberes ancestrais dos povos negros e ind\u00edgenas est\u00e3o ainda hoje presentes na nossa cultura. Como mesmo pode se notar no livro \u201cTorto Arado\u201d, de Itamar Vieira Junior, as refer\u00eancias ao jar\u00ea e outros saberes ancestrais das mulheres idosas negras, das parteiras e curandeiras s\u00e3o encontrados no romance. Zeca Chap\u00e9u Grande, pai das narradoras, \u00e9 um curador de jar\u00ea em sua comunidade, e \u00e9 procurado para curar os males do corpo e da alma com rezas e ra\u00edzes. Assim como Donana, av\u00f3 das protagonistas da hist\u00f3ria, Bibiana e Belon\u00edsia, uma senhora negra que atuava como parteira em sua comunidade, um saber ancestral passado de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Para o pesquisador e professor, Alex Concei\u00e7\u00e3o, o fen\u00f4meno liter\u00e1rio de \u201cTorto Arado\u201d se deve ao momento hist\u00f3rico em que o livro foi lan\u00e7ado, devido ao anseio da sociedade em ver representados em espa\u00e7os de poder a popula\u00e7\u00e3o subalternizada. No livro \u00e9 retratado em um per\u00edodo de reconhecimento das terras quilombolas, e a atualidade de Bibiana e Belon\u00edsia remete a isso. Al\u00e9m disso, para Concei\u00e7\u00e3o, Itamar Vieira Junior entende a import\u00e2ncia da hist\u00f3ria para a forma\u00e7\u00e3o da nossa identidade, tomando a hist\u00f3ria como um fundamento pr\u00e1tico, pois ela serve para estruturar quem n\u00f3s somos diante de n\u00f3s mesmos, e em comunidade. As rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais s\u00e3o presentes no livro a partir de processos de inser\u00e7\u00e3o do negro e sua cultura na sociedade brasileira atrav\u00e9s das hist\u00f3rias contadas pelas protagonistas que revelam ancestralidade, saberes, cantigas de jar\u00ea e religiosidade.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Rep\u00f3rter: Larissa Caldeira<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Fot\u00f3grafa: Lua Ife<\/div>\n<div class=\"yj6qo ajU\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 26 de julho foi discutido no Casar\u00e3o Letras Diamantinas como o jar\u00ea, os saberes ancestrais e as quest\u00f5es \u00e9tnico-raciais se entrela\u00e7am no romance \u201cTorto Arado\u201d, de Itamar Vieira Junior. 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